sábado, 6 de agosto de 2016

TERESINHA - Por Amélia de Freitas Beviláqua

Foto de Amélia com o marido.
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TERESINHA 
        Assim que empurrei a porta do seu quarto, ouvi de dentro um grito pavoroso: 
        - Não Senhora! Não pode entrar, que estou me vestindo!
        Fiquei atordoada, perdi as cores, um relâmpago de raiva passou-me pela vista. Obedeci; porém, todo o resto do dia me perguntei: Porque será? - Não compreendi absolutamente esse procedimento. Toda a vida nos vestimos juntas. Como ela carregava as sobrancelhas! Que expressão rancorosa!... 
         Nunca pensei que me acontecesse tamanha decepção!... Fiquei sóbria. O despeito amargurou-me a vida, quase chorei; grandes cismas me apoquentaram o espírito excitado e nervoso, a revolver-me no anseio de uma grande curiosidade. 
          No dia seguinte, ainda muito desgostosa, arrastava sensaboronamente triste a minha carruagem de bonecas pelo corredor que se comunicava com o jardim, e quase ao enfrentar a porta, avistei-a na extremidade do toilette. A luz do gaz caia em cheio sobre o seu rosto, fazendo-o resplandecer com uma beleza mística de rosa admiravelmente bela, exposta aos raios do sol, na hora do crepúsculo, quando a natureza começa a adormecer. Estava realmente linda; pareceu-me até mais aurosa e mais crescida.  Sinto que não poderei reproduzir mais nunca a impressão que recebi nesse momento. Durante um instante olhei-a muito comovida, como se tivesse visto uma dessas miragens flutuantes que nos aparecem nos sonhos. Impressionou-me essa imagem de cabelos loiros caídos pelo rosto; porém, no mesmo instante  lembrei-me do império com que ousara me repreender na véspera e segui-a com o olhar prescrutador; queria adivinhar o íntimo de seus penamentos. Meu despeito ainda estava muito vivo, precisava de uma desforra. Nunca me tinham falado com tanta rudeza como essa. Teresinha que eu estava olhando ironicamente , essa prima querida, a minha predileta! Sabia andar pelas salas, deslisando suavemente como se arrastasse olhares atrás dos seus encantos; recitava com intonações de tribuna, e até densava valsas nos salões como se fosse uma moça! 
          Que aborrecimento! Bem me importava que seu rosto fosse bonito, que soubesse ler e recitar... Tudo isso eu aprenderia; em breve também seria considerada moça; o principal era saber porque  a vaidosa não me deixava entrar no toilette quando se vestia. Um desaforo! Tinha muita queixa, estava realmente zangada e enfurecida contra aquela mulher pequenina! Que distância era essa que nos separava?! Como se os seus doze anos me fizessem medo... 
          Jurei vingar-me. Deixei-a distrair-se e entrei um dia furtivamente no quarto proibido, pisando leve, muito macia, escondi-me debaixo da cama, comprimindo a respiração, morrendo quase asfixiada, porém, não perdendo um único de seus movimentos. Era um desses aposentos preparados a capricho, o seu gabinete de vestir, elegante, perfumado, cheio de todas as ninharias de que se utilizam as moças bonitas. Um ninho amoroso mesmo. Antes de começar o seu galante preparo, fechou cuidadosamente a porta, trancou, aferrolhou, e para melhor segurança encostou mais uma cadeira. Passou os olhos pelo quarto, revistou-o de lado a lado. Estava sozinha... Tirou os sapatos, e as meias. Começou a andar por todo o espaço do toilette. Às vezes seus pés delicados, muito alvos, rosados nos dedos, bem cavalados, salientando as dobras deixadas pelos sapatinhos velhos e acalcanhados, pisavam tão perto de mim que eu me encolhia com medo que eles me sentissem... Depois, colocada em frente do espelho, sorriu-se esfregou a boca na manga do vestido, examinou os dentes, perfumou o colo, os braços, todo o corpo. Sempre olhando para o espelho, pintou de carmim as faces e os lábios, finalmente seduzida pelo seu próprio encanto beijou apaixonadamente o vidro que a refletia com arrebatamento de beleza tão grande! 
          - Sou muito formosa; muito linda mesmo! 
          Um barulho qualquer sobressaltou-a, revistou os recantos do quarto ainda mais sobressaltada, desconfiada e minuciosa. 
         O pente caiu no assoalho, um passo mais e eu estava perdida. 
         Felizmente o seu olhar vagueava muito aéreo. Ensaiou uns passos de dança, garganteou uma canção e continuou a despir-se. 
         Em primeiro lugar tirou o vestidinho branco, depois o corpinho, em seguida a anágua muito rendada com cercaduras de bordado. Ia tirar a camisa... Ainda olhou desconfiada os arredores do aposento. 
         Quando eu vi o primeiro movimento, tive um frêmito de alegria tão grande, que não pude mais me conter. 
          Saí do meu esconderijo, corri batendo palmas, doidamente feliz e ameacei-a de contar tudo, absolutamente tudo! 
          - Que apresentação! disse-me ela muito corada com um sorriso pálido. 

BREVE BIOGRAFIA DE AMÉLIA
Amélia de Freitas Beviláqua nasceu em 7 de Agosto de 1860 e faleceu em 17 de Novembro de 1946. Formada bacharel em advocacia e precursora na luta pelo direito de igualdade das mulheres. Foi uma grande escritora brasileira de origem piauiense, casada com Clávio Beviláqua. Publicou contos e romances além de escrever como jornalista, o que era raro em sua época. Publicou: Alcione, contos, 1902; Aspectos; Silhuetas; Através da vida. 
Existe muito sobre ela: é só pesquisar na internet. 
Meu objetivo em Gotas de Literatura Brasileira e levar um pouco de conhecimento sobre nossos escritores do passado que, devido às novas formas de comunicação, os jovens da atualidade estão deixando no esquecimento. 
Nicéas Romeo Zanchett

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

CRIMES DE AMOR - por João do Rio

CRIMES DE AMOR 
Uma visita de João do Rio a um presídio. 
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                   -Meu caro amigo, tem você ampla liberdade. Pode ver, interrogar, examinar. Há agora na detenção quatrocentos e cinquenta e quatro detentos, dos quais trezentos e noventa e cinco homens e cinquenta e nove mulheres. Antigamente era maior o numero. Nós conseguimos que se não mantivessem aqui presos à disposição dos delegados, sem processo. Mas, ainda assim, o exercício do crime está bem representado. Há gatunos, desordeiros, incendiários, defloradores, mulheres perdidas, vítimas da sorte, criminosos por amor - toda uma flora estranha e curiosa. Estude você os crimes de amor. Lembra-se de um dramalhão do repertório da Ismênia: Aimée, assassino por amor?  Não é do seu tempo nem do meu, mas comoveu a geração passada e tem contínuos exemplos nas penitenciárias... 
                   - E nas literatura. 
                   - Pois vá ver esses criminosos. O assassino por amor é o único delinquente que confessa o crime. 
                   Alguns chegam mesmo a reviver detalhes insignificantes. Ao passo que os gatunos, os incendiários e os homicidas vulgares, mesmo tendo a cumprir sentenças longas, negam sempre o crime; essas vítimas da paixão não se cansam de contar a sua história, cada vez com maior número de minúcias e mais abundâncias de memória. 
                   - Pois vejamos as vítimas do amor! 
                   O capitão mandou chamar o chefe dos guardas, Antônio Barros e saímos para o páteo, onde os presos serventes mourejavam. 
                   Há uns cinco casos notáveis, informava-me o guarda. Vamos entrar na primeira galeria. 
                   A galeria é um enorme corredor, ladeado de cubículos engradados.  A má disposição de luz, com a claridade da frente e dos fundos e a claridade das prisões, dá a esse corredor uma perpétua atmosfera de meia sombra. Através dos muros brancos ouve-se o sussurro das conversas murmuradas. Barros aponta-me silenciosamente uma das jaula. Aproximo-me, e dos fundos vejo surgir um velho preto, magro, seco, com olhar ardente e a cabeça branca. Pergunto receoso:
                  - Por que está aqui? 
                  - Porque matei. 
                  Nas prisões há duas coisas revoltantes: o cinismo que nega e o que confessa com uma afronta. Aquela frase breve tinha, porém, o cunho de uma dolorosa sinceridade. 
                  - Eu sou do crime da Estrada Real, continuou o pobre negro, agarrando-se aos varões de ferro. Chamo-me Salvador Firmino, tenho sessenta e seis anos. 
                  - E matou? 
                  - Porque ela quis. 
                  E de repente, como se a lembrança da cena o forçasse a se desculpar, a sua cabeça branca curvou-se, os seus olhos lampejavam: 
                  - Quando encontrei Silvéria, era casado e feliz. Abandonei a mulher, só para viver com ela. Silvéria tinha dois filhos. Eduquei-os eu, dei-lhes o sustento, o ensino. Uma casa que consegui comprar logo passei para o seu nome, e de tudo eu me lembrava que a tornasse feliz.  Silvéria tinha quarenta anos, e eu gostava dela. Foi quando apareceu o outro. A mulher ficou com a cabeça virada, já não lhe bastava o meu carinho. Saía só, para passear com ele, não se importava com o passado, não me falava. O desaforo chegou ao ponto do o outro vir trazê-la até a porta de casa.  Às vezes, eu os via de longe e entrava no mato, para não os encontrar. Que dor! Eu tinha tanto medo de acabar... Uma noite, ela saiu, esteve na festa de Nossa Senhora e voltou acompanhada até à porta pelo outro.  Eu bem os vira, mas fingi não saber de nada quando entrei em casa. Silvéria conversava com a vizinha e dizia: 
                  "Mas se eu já lhe disse que podia vir..." 
                   - Não pude comer a sopa; fui logo deitar-me. Do quarto via-se a sala, onde dormia o pequeno filho dela, e não demorou muito tempo que a vizinha não colocasse na cama outro travesseiro. Eu estava olhando, à luz da lamparina. Deixei passar alguns minutos e disse: 
                  "- Ó Silvéria, vem te deitar. Ela não respondeu."
                  "- Silvéria, já disse que viesses dormir!"
                  " - Já vou."
De repente os cães, no terreiro, começaram a ladrar. Era um alarido. Saltei da cama, agarrei o revolver. 
                  " - Quem está aí?" 
                     Ela apareceu então; 
                   " - Deita-te, não é nada."
                   " - Qual! Pois os cães estão ladrando... É alguém."
                   " - Que vais fazer? " 
                   " - Ver." 
                   " - Não vás, Firmino, não vás, não é nada!" 
                      E amarrava-se ao meu braço.
                    " - Como não hei de ir? Se for gatuno? Talvez esteja a roubar a criação." 
                    "- Firmino, meu velho, não vás! "
                      Dei-lhe um empurrão, abri a tranca.  Na noite, só a lua aclarava as moitas, e os cães arfavam cansados. Voltei. Ela estava sentada, chorando. 
                    " - Tu desconfias de mim!" 
                    " - Eu? que falso! " 
                    " - Tu pensavas que era o Herculano!" 
                    " - Eu? Nem pensava nisso! "
                    " - Pensavas, sim! E o melhor é acabar com isso. Vou-me embora!" 
                     Ela estava à espera de um pretexto. Para que discussões? Deitei-me outra vez, sem poder dormir. Silvéria continuava na sala, remexendo os móveis.  Pela madrugada, já os galos tinham cantado e o luar estava desmaiando,  ouvi que abriam a porta. Ergui-me, corri. Ela ia pela estrada, com a trouxa da roupa, ia sem se despedir de mim, que lhe dera tudo, ia embora... Deitei a gritar: 
                     " - Silvéria! Silvéria! Não vás."
                     " - Adeus! " 
                     " - Mas tu estás maluca, mulher."
                     " - Não me fales, estou farta." 
                     " - Vais para o Herculano?" 
                     " - Vou, sim, e agora?" 
                     " - Um homem que podia ser teu filho!"
                     " - Talvez seja mais feliz." 
                     " - Silvéria! Silvéria! "
                     " - Basta de conversa fiada..." 
                         - Então eu senti um desespero que me sacudia os nervos, e não pude mais... 
                         Para ouvir a história, encostara a cabeça na pedra em que os varões de ferro se encravavam. O pobre velho tremia num soluço sem fim. Então eu lhe estendi a mão sem uma palavra, e segui, como se tivesse acordado de um horrível pesadelo. O guarda Barros acompanhava-me. 
                        - Pobre homem! Tentou suicidar-se e é preciso uma vigilância extrema para que não tente outra vez contra  própria vida... 
                        Já os sinais misteriosos, com os quais se correspondem,  os detentos haviam anunciados uma pessoa estranha no estabelecimento. Em todos os cubículos, nas galerias, correra o som anunciador, e nas grades amontoavam-se as caras dos que não serõ em breve da sociedade. Barros parou pouco adiante, apontando-me um homem magro, pálido, com o pescoço embrulhado num cache-nez.  O homem corcovava, e os seus dois olhos brilhavam como se os de um tísico. Ao lado, um português bem disposto sorria. 
                     - O seu crime? 
                     - Umas rusgas, tentativa de morte, não fui eu... 
                     - E o seu? 
                     - Matei minha mulher. 
                     Esse também confessava. Então era verdade? O crime de amor é o único confessável? Acerquei-me cheio de simpatia, e o sujeito magro não esperou que lhe perguntasse mais nada.  Antes da ânsia de desabafar, atirou o cacha-nez  às costa e começou: 
                     - Chamo-me Abílio Sarano, sou barbeiro. Sempre fui honesto. É a primeira vez que entro aqui, por causa do crime do Catete.  Não sabe? V.Sa. não sabe? Eu namorei uma moção, D. Geraldina, e com ela casei-me. Dias depois do nosso casamento, minha esposa confessou-me que tinha sido gozada por um negociante, amante de sua própria mãe.  Esse homem voltava a perseguí-la. Era de noite, eu voltara do trabalho e amava minha senhora. Foi como se o mundo todo se desmoronasse. Ela, coitadinha, caíra de joelhos; eu interrogava, querendo saber tudo: 
                   " - Anda, fala, diga como foi." 
                   " - O negociante, o biltre forçara-a numa cadeira e ninguém soubera. Quando acabou, eu estava sem forças e chorava." 
                   " - E agora, Geraldina, que será de nós? que vai ser de nós?" 
                   " Ela consolava-me. Agora, era esquecer esse sujeito odioso. Acreditei e começamos a viver a triste vida da dúvida. A mãe infame e a família continuavam, porém, a seduzi-la. Uma noite, apesar de ser sábado, eu fui cedo para casa. Geraldina estava nervosa. Conversávamos na sala, quando a criada veio dizer que um homem procurava a patroa. 
                   " - Um homem? Espera, vou eu mesmo ver quem é." 
                   " No topo da escada estava um cidadão robusto." 
                   " - D. Geraldina está?" 
                   " Num relâmpago compreendi que era ele." 
                   " - D. Geraldina? Ah! canalha, espera que eu te vou dar a Geraldina! " 
                   Saquei o revolver, e minha senhora apareceu assustada: 
                    " - Fuja, seu Alvaro, fuja!" Fuja!" 
                    " Ela mandava-o fugir. Como um louco, ergui a arma. Ele descia os degraus da escada, e Geraldina tapara-me a passagem. Detonei uma, duas vezes, descemos de roldão. No patamar, o corpo dele jazia. Matei-o, pensei, acabei a minha vida! E deitei a correr... Só mais tarde, soube a verdade. As balas tinham ferido minha mulher. Ele fingira-se morto e escapara são e salvo. É por isso que estou aqui." 
                    O chefe dos guardas chamara-me ao fundo, para a mesa que fica entre as escadas das galerias superiores. 
                    - Há ainda dois casos interessantes: um menino e uma mulher. Quer ver? Vou mandar buscar o menino. Sente-se.  
                    Eu sentei-me. Por todas as janelas gradeadas, o sol entrava claro e benfazejo. Minutos depois, surgia, trazido pelo guarda, um pardinho cor azeitona, dessas fisionomias honestas, alheias a devassidões. 
                    - Como se chama? 
                    Ele tomou uma posição respeitosa, falando bem, com desembaraço. 
                    - Chamo-me Alfredo Paulinho, sim, Senhor. Tenho dezoito anos. 
                    - E já casado?
                    - Casei-me aos dezesseis. Os meus parentes não queriam mas, depois o pai disse: 
                    " - É melhor mesmo. Ao menos, não ficas perdido."
                     " - Eu já ganhava o suficiente para sustentar  dignamente a minha família. Casei. Foi nessa ocasião que o Dr. Constantino Nery me ofereceu o emprego de copeiro no palácio de Manaus.  Aceitei, e voltávamos para o Rio quando  à bordo encontramos um rapaz de dezoito anos, chamado José."
                    - Era bonito o José?
                    -  Era simpático, sim, Senhor, não posso negar. Ficamos tão amigos que, ao chegar, ele foi morar conosco. Primeiro, tudo andou direito, mas depois começaram os cochichos, as cartas anônimas. Era preciso tomar uma resolução. Disse ao José que não o podia ter mais em casa - por certas dificuldades. Ele saiu, mas eu sabia que a Adélia lhe falava. Passaram-se seis meses  nessa tortura. De vez em quando eu a interrogava e sempre obtinha respostas negativas. Certo dia, passei pelo José na rua, e ele riu. Em casa, pus Adélia em confissão, e ela disse: 
                    " - É mesmo, fizeste bem em por esse homem na rua. Andava me tentando e foi tão ingrato que nem se despediu da gente direito." 
                    " - De outra feita, encontrei-os na esquina, conversando, e afinal, em casa. Foi então que eu fiquei desatinado." 
                     " Oh! o amor! " Eu ouvira o amor sexagenário, o amor doloroso, o amor liliput desse romance de crianças. Todos tinham chegado ao mesmo fim trágico, ontem criaturas dignas, hoje com as mãos vermelhas de sangue, amanhã condenadas por um juíz indiferente. Fiz um gesto. O pequeno insistiu." 
                      " - Já que estou aqui. quero trabalhar. Nunca passei sem trabalhar. Peço a V.Sa. para ver se entro como servente. Não quero estar no cubículo com aquela gente. " 
                     Nesse momento traziam uma moça negra roliça, de dentes afiados, com um sorriso alvo a iluminar-lhe a cara. Era a Herculana, a autora de um crime célebre. Matara o amante enquanto este dormia, acendera todas as velas que encontrara e começara a cantar. O amante tinha vinte e três anos. 
                      - E por que foi? 
                       "- Ora, nós brigamos. Eu gostava dele.  Nós brigamos. Um dia ele me disse uma porção de nomes. Eu fiquei calada, mas quando o vi deitado, com o pescoço à mostra, roncando, parece que o diabo me tentou. E fui então com a faca..." 
                       - Aproximei-me, bem perto, quase murmurando as palavras: 
                       - Diga: era capaz de fazer o mesmo outra vez, de abrir o pescoço do pobre rapaz, de ascender as velas, de cantar? diga: era? 
                      Ela riu como um fera boceja, e disse num arranco de todo o ser: 
                       " - Eu era, sim, Senhor..." 
                      Que estranha psicologia a dessas flores magníficas do jardim do crime! Que poderoso transformador o amor! Bem dizia Tennyson, ao evocá-lo: "Thou madest Life, in man and brute, thou modeste Death... "  Eu começara a minha vida à beira do deserto, na púrpura de uma moita de lírios vermelhos. 
                      Com os corações em sangue, vira uma coleção de assassinos, desde um velho lamentável até uma criança honesta, postos fora da sociedade pelo desvario, pela loucura que a paixão sobra no mundo. A mulher, que os poetas levam a cantar, Vênus inconsciente e perversa, Lilith lendária, surgia nessa ruína, perdendo, estragando, corroendo, matando, e eu sentia, no olhar e no gesto de cada uma das vítimas do amor, o desejo de guardar o perfil das suas destruidoras.  Oh! esses seres, que Schopenhauer denominava animais de cabelos compridos e ideias curtas, que formidável obra de destruição cometem!  São a torrente a que ninguém pode resistir, a força dominadora da maldade, os Molochs  da alegria.  As gerações futuras, livres dos nossos deuses, devem, para que a Harmonia as guie, levantar nas cidades um altar votivo, onde os adolescentes possam sacrificar, todas as manhãs, à ira de Vênus sanguisedenta. 
                    Mas as minhas reflexões pararam. Como tocasse um sino, pela escada da direita desceu um cavalheiro elegante, que tapava o rosto com o lenço. E logo depois, gracil e airosa, com um rico vestido preto, caminhou pela galeria, olhando altivamente os presos, uma mulher cuja fronte pura parecia a pura fronte da inocência. 
                   O guarda curvou-se: 
                    - O Dr. Saturnino e a esposa... 
                    Eu vira o último crime de amor da Detenção. 
João do Rio, ou
Paulo Barreto, seu pseudônimo.

BREVE BIOGRAFIA DE JOÃO DO RIO 
                  João do Rio, pseudônimo de  João Paulo Barreto, escritor brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 1881 e adquiriu grande reputação entre os escritores da geração nova, pela vivacidade e pitoresco do seu estilo. Era chamado de repórter maldito da noite carioca. Tinha uma observação crítica, minuciosa e direta da vida  e da linguagem dos diferentes grupos sociais do Rio de Janeiro. Costumava frequentar os presídios para conhecer as histórias sobre os mais diversos crimes que aconteciam na cidade e também em outros estados do Brasil. Seu olhar estava sempre atento e gostava de inserir-se em  ambientes diversos; escrevia sobre a vida, tanto de trabalhadores braçais como de prostitutas, presidiários, madames da sociedade e outros seres urbanos. Gostava do idioma francês e utilizava diversas expressões daquela língua em seus textos. Retratava, com força literária, a   sofisticação e dissolução dos costumes da elite carioca, descrevendo suas festas dominadas por figuras sensuais, madames e cortesãs. Muitas vezes o erotismo era peça fundamental que utilizava de forma direta, manifestando a realidade popular das massas nas ruas durante o carnaval.  Frequentava terreiros de umbanda e candomblé, igrejas, cabarés, cortiços, favelas e palácios, onde buscava seus personagens mais interessantes. Suas peças teatrais e contos eram ambientados nestes locais com a linguagem típica de cada um. Sabia, como ninguém, combinar o preciosismo da linguagem comum com a inovação incorporada  do estrangeirismo da moda de sua época. Ele tematizou a cidade moderna, tanto na ausência de limites morais como em suas facetas técnicas da modernidade de então. 
                   Em sua carreira jornalística, costumava utilizar os mais diferentes pseudônimos como Joe,  Carand, Godofredo Alencar, e outros. 
                    João Paulo Barreto estudou com seu próprio pai, o professor Alfredo Coelho Barreto, e já na adolescência ingressou no jornalismo; em 1899 figurava entre os colaboradores do jornal Cidade do Rio, ao lado de figuras importantes  como José do Patrocínio e outros veteranos da literatura e da política brasileira. Foi nessa época que surgiu o pseudônimo de João do Rio, com o qual ficou famoso e nacionalmente conhecido. 
                    Embora muitos de seus contos e crônicas mostrem festas da alta sociedade, tinha especial interesse pela vida de pessoas comuns como presidiários prostitutas de luxo e suas orgias com figurões, ricaços e políticos. Seus textos também focalizavam aspectos da vida pobre das favelas e a loucura que tomava conta da cidade durante o carnaval. 
                    Em 1991 publica Os Livres Acampamentos da Miséria, no qual ele sobe o morro de Santo Antônio, para ouvir samba; esta é talvez a primeira descrição de uma favela no Rio de Janeiro. 
                    Além de crônicas, contos e reportagens, João do Rio escreveu importantes romances para engrandecer a literatura nacional. Entre eles podemos citar A Correspondência de uma Estação de Cura, publicada em 1918. Escreveu, também, várias peças teatrais. Entre elas, a de maior êxito foi A Bela Madame Vargas, encenada em 1912. Outras publicações que ficaram famosas foram: As religiões do Rio; O Momento literário; O jornal da primavera; Dentro da noite; Alma encantadora, entre muitas outras. 
                     Em 1910 foi eleito como membro da Academia Brasileira de Letras. 
                     Morreu em 1921, enquanto escrevia uma crônica para o jornal A Pátria, fundo por ele em 1920. Seu velório foi realizado na própria redação. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

OS SERTÕES - de Ecuclides da Cunha



Euclides da Cunha ocupa um destacado lugar na literatura brasileira graças ao seu talento especial na manipulação dos esquemas da nossa língua. Fundindo a tradição e a mudança, com todo o brilhantismo de sua imaginação, tornou-se o grande estilista de nossa literatura. 
Em todos os seus trabalhos fica evidenciado seu estilo objetivo, nervoso e  despojado. Suas frases são compostas com marcantes palavras em que se mesclam, numa tensão dialética constante, a sua postura sociológica e literária, que resulta na qualidade superior só alcançada por  quem escreve com paixão.  
O flagelo das secas nordestinas, que sempre resulta em paixões místicas, não fora compreendido e resultou na matança dos sertanejos que, seguindo seu líder e sua fé, não se renderam ao avassalador poder do governo opressor. 
Euclides da Cunha, utilizando de uma linguagem cuidada e orientada segundo os mesmos padrões parnasianos de vernaculidade,  relata em detalhes o massacre que sempre será uma vergonha nacional manchada com o sangue dos nossos irmãos indefesos.
Os Sertões foram fruto de uma série de reportagens escritas para o jornal "O Estado de São Paulo" no término da Campanha de Canudos - Bahia, em 1897.
A primeira publicação da obra ocorreu no Rio de Janeiro em 1902. Divide-se em três partes: A Terra, O Homem, e A Luta. 
A primeira tem como conteúdo um apanhado geral da região das secas e de suas causas, segundo pensamento da época. 
A segunda, baseia-se na ideia do condicionamento do meio e da herança, onde se estuda o gênese do jagunço e, principalmente do líder Antônio Conselheiro, chefe carismático de uma multidão de fanáticos reunida em Canudos. 
Na terceira parte, narram-e os sucessivos combates que levaram ao extermínio dos jagunços pelas tropas federais. 
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OS SERTÕES 
Por Euclides da Cunha 
O trecho, aqui apresentado, pertence à segunda parte, e subtitula-se "A Seca" e "Insulamento no Deserto". 
Relata o imenso sofrimento do sertanejo para permanecer na terra que tanto ama. 
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                   De repente, uma variante trágica. 
                   Aproxima-se a seca. 
                   O sertanejo advinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular  com que se desencadeia o flagelo. 
                    Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará. 
Vaqueiro Nordestino

                    Mas o nosso sertanejo não foge. A seca não o apavora. É um complemento á sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a estoico  Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, alimenta a todo o transe esperanças  de uma resistência impossível. 
                    Com os escassos recursos das próprias observações e das dos seus maiores, em que ensinamentos práticos se misturam a extravagantes crendices, tem procurado estudar o mal, para o conhecer, suportar e suplantar. Aparelha-se com singular serenidade para a luta. Dois ou três meses antes do solstício  de verão, especa e fortalece os muros dos açudes, ou limpa as cacimbas. Faz os roçados e arregoa as estreitas faixas de solo  arável à orla dos ribeirões. Está preparado para as plantações ligeiras à vinda das primeiras chuvas. 
                    Procura em seguida desvendar o futuro. Volve o olhar para as alturas: atenta longamente nos quadrantes; e perquire os traços mais fugitivos das paisagens... 
                    Os sintomas do flagelo despontam-lhe, então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, mosqueadas de tufos pardos de árvores mascescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; a abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... Do mesmo passo nota que os das, estuando logo ao alvorecer, transcorrem abrasantes, à medida em que as noites se vão tornando cada vez mais frias. A atmosfera absorve -lhe, com avidez de esponja, o suor na fronte a armadura de couro, sem mais flexibilidade primitiva, se lhe endurece aos ombros, esturrada, rígida, feito uma couraça de bronze. E ao descer das tardes, dia a dia menores e sem crepúsculos, considera, entristecido, nos ares, em bandos, as primeiras aves emigrantes, transvoando a outros climas...
                     É o prelúdio da sua desgraça. 
                     Vê-o acentuar-se, num crescendo, até dezembro. 
                     Precautela-se: revista, apreensivo, as malhadas. Percorre os logradouros longos. Procura entre as chapadas que se esterilizam várzeas mais benignas para onde tange os rebanhos. E espera, resignado, o dia 13 daquele mês. Porque em tal data, usança avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando a Providência. 
                     É a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer expões ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo. 
                    Esta experiência é belíssima. Em que pese ao estigma supersticioso, tem base positiva, e é aceitável desde que que se considere que dela se colhe a maior ou menor dosagem de vapor d'água nos ares, e, dedutivamente, maiores ou menos probabilidades de depressões barométricas, capazes de atrair o afluxo das chuvas.
                     Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa ainda vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima, ante os seus piores vaticínios.  Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para definitiva consulta aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa ansiosa e no dia de S. José, 19 de março, procura novo augúrio, o último. 
                      Aquele dia é para ele o índice dos meses subsequentes  Retrata-lhe, abreviadas em doze horas, todas as alternativas climáticas vindouras. Se durante ele chove, será chuvoso o inverno; se, ao contrário o sol atravessa abrasadamente o firmamento claro, estão por terra todas as suas esperanças. 
                      A seca é inevitável. 
                     Então se transfigura. Não é mais o indolente incorrigível ou o impulsivo violento, vivendo às disparadas pelos arrastadores.  Transcende a sua situação rudimentar. Resignado e tenaz, com a placabilidade superior dos fortes, encara de fito a fatalidade incoercível; e reage. O heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias espantosas.  Não há revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém descreve - a insurreição da terra contra o homem. A princípio este reza, olhos postos na altura. O seu primeiro amparo é a fé religiosa.  Sobraçando os santos milagreiros, cruzes alçadas, andores erguidos, bandeiras do Divino ruflando, lá se vão, decampados em fora, famílias inteiras - não já os fortes e sadios senão os próprios velhos combalidos e enfermos claudicantes, carregando aos ombros e à cabeça as pedras dos caminhos, mudando os santos  de uns para outros lugares. Ecoam largos dias, monótonas, pelos ermos, por onde passam as lentas procissões propiciatórias, as ladainhas tristes.  Rebrilham longas noites nas chapadas, pervagantes, as velas dos penitentes... Mas os céus persistem sinistramente claros; o sol fulmina a terra; progride o espasmo assombrador da seca. O matuto considera a prole apavorada; contempla entristecido os bois sucumbidos, que se agrupam sobre as fundagens das ipueiras, ou, ao longe, em grupos erradios  e lentos, pescoços dobrados, acaroados com o chão, em mugidos prantivos "farejando água"; - e sem que se lhe amorteça a crença,sem duvidar da Providência que o esmaga, murmurando às mesmas horas as preces costumeiras, apresta-se ao sacrifício.  Arremete de alvião e enxada com a terra, buscando nos estratos inferiores a água que fugiu da superfície. Atinge-os às vezes: outras, apos enormes fadigas, esbarra em uma lage que lhe anula todo o esforço despendido;  e outras vezes, o que é mais corrente, depois de desvendar tênue lençol líquido subterrâneo, o vê desaparecer um, dois dias passados, evaporando-se, ou sugado pelo solo. Acompanha-o tenazmente, reprofundando a mina, em cata do tesouro fugitivo.  Volve por fim, exausto, à beira da própria cova que abriu, feito um desterrado. Mas como frugalidade rara lhe permite passar os dias com alguns manelos de paçoca, não se lhe afrouxa, tão de pronto, o ânimo. 
                    Ali esta, em torno, a catinga, o seu celeiro agreste. Esquadrinha-o. Talha em pedaços os mandacarus que desalteram, ou as ramas verdoengas dos juazeiros que alimentam os magros bois famintos; derruba os estípites dos ouricuris e rala-os, amassa-os, cozinha-os, fazendo um pão sinistro, o bró, que incha os ventres num enfarte ilusório, empanzinando o faminto; atesta os jiraus de coquilhos; arranca as raízes túmidas dos umbuzeiros, que lhe dessedentam os filhos, reservando para si o sumo  adstringente dos cladódios do "chique-chique", que enrouquece ou extingue a voz de quem o bebe, e demasia-se em trabalhos, apelando infatigável para todos os recursos, - forte e carinhoso - defendendo-se e estendendo a prole abatida e aos rebanhos confiados a energia sobre-humana. 
                     Baldam-se-lhe, porém, os esforços. 
                     A natureza não o combate apenas com o deserto. Povoa-a, contrastando com a fuga das seriemas, que migram para outros "tabuleiros", e jandaias, que fogem para o litoral remoto, uma fauna cruel. Miríades de morcegos agravam a "magrém", abatendo-se sobre o gado, dizimando-o. Chocalham as cascavéis, inúmeras, tanto mais numerosas quanto mais ardente o estio, entre as macegas recrestadas. 
                     À noite, a suçuarana traiçoeira e ladra, que lhe rouba os bezerros e os novilhos, vem beirar a sua rancharia pobre. 
                    É mais um inimigo a suplantar.
                    Afugenta-a e espanta-a, precipitando-se com um tição aceso no terreiro deserto. E se ela não recua, assalta-a. Mas não a tiro, porque sabe que, desviada a mira, ou pouco eficaz o chumbo, a onça, "vindo em cima da fumaça", é invencível.
                   O pugilato é mais comovente. O atleta enfraquecido, tendo à mão esquerda a forquilha e à direita a faca, irrita e desafia a fera, provoca-lhe o bote e apara-a no ar, trespassando-a de um golpe. 
                   Nem sempre, porém, pode aventurar-se à façanha arriscada. Uma moléstia extravagante completa a sua desdita - a hemeralopia.  Esta falsa cegueira é paradoxalmente feita pelas reações da luz; nasce dos dias claros e quentes, dos firmamentos fulgurantes, do vivo ondular dos ares em fogo sobre a terra nua. É uma pletora do olhar. Mal o sol se esconde no poente a vítima nada vê. Está cega. A noite afoga-a de súbito, antes de envolver a terra. E na manhã seguinte a vista extinta lhe revive, acendendo-se no primeiro lampejo do levante, para se apagar, de novo, à tarde, com intermitência dolorosa. 
                   Renasce-lhe com ela a energia. Ainda se não considera vencido. Restam-lhe, para desalterar e sustentar os filhos, os talos tenros, os mangarás das bromélias selvagens. Ilude-os com essas iguarias bárbaras. 
                   Segue, a pé agora, porque se lhe parte o coração só de olhar o cavalo, para os logradouros. Contempla ali a ruína da fazenda: bois espectrais, vivos não se sabe como, caídos sob as árvores mortas, mas soerguendo o arcabouço murcho sobre as pernas secas, marchando vagarosamente, cambaleantes; bois mortos há dias e intactos, que os próprios urubus rejeitam, porque não rompem a bicadas as suas peles esturradas; bois jururus, em roda da clareira de chão entorroado onde foi a aguada predileta; e, o que mais lhe dói, os que ainda não de todo exaustos o procuram, e o circundam, confiantes, urrando em longo apelo triste que parece um choro. 
                   E nem um cereus avulta mais em torno; foram ruminadas as últimas ramas verdes dos juás...
                   Trançaram-se, porém, ao lado, impenetráveis renques de macambiras. É ainda um recurso. Incendeia-os, batendo o isqueiro nas acendalhas das folhas ressequidas para os despir, em combustão rápida, dos espinhos. E quando os rolos de fumo se enovelam e se diluem no ar puríssimo, vêem-se, correndo de todos os lados, em tropel moroso de estropeados, os magros bois famintos, em busca de último repasto... 
                    Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidades sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepidante das caatingas e o sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de revezes, dobra-se afinal. 
                    Passa certo dia, à sua porta, a primeira turma de "retirantes". Vê-a, assombrado, atravessar o terreiro, miseranda, desaparecendo diante de uma nuvem de poeira, na curva do caminho... 
Retirantes Nordestinos 
No outro dia, outra. E outras. É o sertão que se esvazia. 
                  Não resiste mais. Amatula-se num daqueles bandos, que lá se vão caminho em fora, debruando de ossadas as veredas, e lá se vai ele no êxodo penosíssimo para a costa, para as serras distantes, para quaisquer lugares onde o não mate o elemento primordial da vida. 
O desânimo 
                     Passam-se meses. Acaba-se o flagelo. Ei-lo de volta. Vence-o a saudade do sertão. Remigra. E torna feliz, revigorado, cantando; esquecido de infortúnios, buscando as mesmas horas passageiras da ventura perdida e instável, os mesmos dias longos de transes e provações demoradas. 


BREVE BIOGRAFIA
              Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo, Estado do Rio de Janeiro, a 20 de janeiro de 1866. Terminando o curso secundário, matricula-se na Escola Politécnica, mas é obrigado, por motivos financeiros, a transferir-se para a Escola Militar (1884), de onde sai tenente e engenheiro, após uma interrupção provocada por suas ideias liberais. 
               Dedicando-se à Engenharia e ao jornalismo, nessa atividade segue para Canudos em 1896, como correspondente de "O Estado de São Paulo". No regresso vai para São José do Rio Pardo, a fim de construir uma ponte, e lá escreve  Os Sertões, cuja publicação, em 1902, lhe trouxe imediata notoriedade. Ingressa na Academia Brasileira de Letras e no Itamarati, e mais tarde torna-se professor de Lógica no Colégio Pedro II (1909). 
               Morreu assassinado a 15 de agosto de 1909. Deixou, além de "Os Sertões": "Peru versus Bolívia" (1907), "Contrastes e Confrontos" (1907), "À Margem da História" (1909), "Canudos, diário de uma expedição" só publicado em 1939. 
               Nicéas Romeo Zanchett 
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

CARAMURU - Por Santa Rita Durão


CARAMURU
Por Fr. José de Santa Rita Durão 

O NOSSO POEMA NACIONAL 
No seu poema épico Caramuru, teve anta Rida Durão um bem definido propósito patriótico. Este livro é a época do descobrimento do Brasil; a história do país é objeto no poema de três longas narrativas episódicas diversas, e o teatro da ação é o Recôncavo, por assim dizer, o berço da nacionalidade que ia aqui nascer e desenvolver-se.
Foi orquestrado pelo nosso grande Maestro Carlos Gomes. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               Ia ele de Portugal para o Brasil, quando uma tremenda tempestade acomete o navio e o faz dar à costa. Muitos cadáveres são arrojados pelas ondas à praia, onde os ferozes indígenas os devoravam. Sete, apenas, escaparam com vida, vindo do navio a nado até à terra. A estes poupam os horrendos selvagens, nus, de pele avermelhada untada de resinas, com as orelhas, nariz e boca furados, de onde pendem grosseiros enfeites, e com os lábios ainda vermelhos do sangue das suas vítimas recentes. 
               Mas se os poupam e os sustentam com cuidado, é apenas tendo em vista a sua engorda, a fim de mais delicioso e farto ser o banquete que preparam. 
               Enquanto dura o seu cativeiro, um dos náufragos, acompanhando-se numa viola que as ondas tinham trazido à pria ( juntamente com armas, munições e pólvora) canta, para recrear os companheiros. É nativo de uma ilha do Atlântico e poeta; e canta a história do bom selvagem americano que escutou a palavra de um missionário e morreu com cheiro de santidade, sendo o seu corpo levado numa nuvem para a ilha do Corvo, onde foi colocado no cimo de um alto pico, transformando-se aliem estátua que ficou apontando para o Brasil, a fim de que os europeus, obedecendo ao seu gesto, se encaminhassem para o Novo Mundo e ali espalhassem a salvadora doutrina de Cristo. 
                Enquanto os cativos escutavam  estes cantores, Diogo, que entre eles se encontrava, contou-lhes o pressentimento que tinha de que brevemente a sua triste vida findaria na horrenda festa dos selvagens. E aconselhou-os a que afastassem seus pensamentos de cuidados terrenos, e, pedindo a Deus perdão de suas culpas, lhe encomendassem as almas. 
                Iam adiantados os preparativos da sinistra festa, e em breve os canibais os viriam buscar à gruta onde faziam sua morada, exceto a Diogo, que deixaram ali ficar, porque estava muito magro e doente. Ataram seis a postes e já o carrasco se aproximava de um erguendo o maço para com ele lhe esmagar a cabeça, quando se ouviu espantoso trovão que a todos amedronta, ao mesmo tempo que uma turba inimiga faz chover dardos e pedras sobre os selvagens, fazendo mortos os que queriam matar. Era Sergipe, chefe da vizinha tribo que com eles andava em guerra, que assim, de surpresa, os acometia. Logo esse chefe manda soltar os cativos, a quem toma por escravos. Porém, não há deles mais memória, e presume-se que, vagueando pelas brenhas, teriam ali encontrado a morte, servindo de alimento às feras. 
II
                O sol já estava alto quando, ao dispersar daquela turba carniceira, Diogo se viu só na gruta, ocupado por mil pensamentos desencontrados e por mil terrores. Anima-se, porém, em breve, e o seu peito vagaroso resolve não morrer sem tentar defender-se. Doente e enfraquecido, pouco podia contar com as suas forças, mas entrando na caverna que lhe servi de habitação, ali se revestiu das suas armas e elmo, e cingiu a espada e pôs a espingarda ao ombro. 
                Saindo da gruta assim armado, viu a turba dos selvagens, que davam mostra de terem sido vencidos. Vendo Diego armado, recuaram espavoridos, julgando contemplar um ente sobrenatural. De bruços aos seus pés lhe cai o chefe Gupeva, sucumbindo de pavor. Aproveitando aquela disposição, Diego, servindo-se do pouco que que aprendera da língua durante o cativeiro, fez valer o terror que inspirava e, falando mansamente, lhes explica que serve um Deus onipotente, que é o Pai de  todos, e que detesta os sacrifícios humanos e proíbe os costumes canibais. Leva consigo o chefe Gupeva ao interior da gruta, e ai, servindo-se do fuzil, acende rápido a candeia, o que mai assombra e assusta os selvagens. Mostra-lhes as armas, as roupas, e uma imagem da Virgem que impressiona vivamente  Gupeva. 
                 Sai dali o chefe cheio de respeito e fala aos seus, repetindo-lhes as palavras do branco e ordenando que o venerem e o temam, porque é seu amigo e poderoso.  
                 No dia seguinte organiza-se uma grande caçada, e então Diego, pegando na espingarda, atira a uma ave que logo derruba. O efeito deste tiro é espantoso. Os selvagens caem por terra e estorcem-se de pavor, gritando: Caramuru! que significa filho do trovão. E, dai por diante, esta palavra fica sendo para eles o nome do herói.
                 Levam-no então para a sua taba ou aldeia, onde lhe fazem as honras da hospitalidade. Pouco depois tem Caramuru a oportunidade de ver a filha de um rei vizinho, que é branca, rosada e linda como um anjo. Logo lhe oferece a mão de esposo, apenas exigindo que ela se convertesse ao catolicismo.
                  A bela Paraguaçu passa a servir de interprete para as conversas entre Caramuru e Gupeva; e este conta ao branco a sua fé na imortalidade com tão acertadas e claras razões que deixam o herói admirado. 
                  Pelo meio da conversa vai sempre Diego falando do Deus verdadeiro e da sua santa doutrina e Gupeva conta-lhe como a tradição na sua gente tem observado as crenças antigas de um dilúvio universal de que só espantou Tamandaré e sua esposa, de quem descende toda a raça humana espalhada pelo mundo. 
                  Diz-lhe as leis do seu povo, como se pratica a lei de Talião e como os anhangás (demônios) tentam os homens  e os levam aos crimes; como existe um inferno horrendo para os maus em vales profundíssimos escondidos entre as montanhas que dividem o Brasil do Peru;  e que existe um paraíso além dessas montanhas, para os heróis e os justos. 
                  Termina Gupeva o seu discurso contando os milagres e pregões de São Thomé aos selvagens; sabem estes que ele era um enviado  de Deus que queria ensinar-lhes o caminho do céu, mas esqueceram a sua doutrina. 
                  Grande alarido interrompe o chefe nesta altura. É uma forte tribo inimiga que avança em pé de guerra. Recomenda Diego calma e prudência, e, disparando a espingarda, semeia terror na turba inimiga. 
IV
                   O invasor era um chefe errante, terror do sertão, chamado Jararaca que, tendo um dia avistado a linda Paraguaçu, desejava casar com ela. Pedira ao pai e este acedera ao eu pedido, mas Paraguaçu não dera seu consentimento. Despeitado e irritado com esta recusa, Jararaca jurava vingar-se. 
                   Para esse fim reuniu numerosos tribos de ferozes selvagens, de aspecto tão medonho que só vê-los causava espanto. Numerosos como as areias do mar,  ai vinham eles agora, com seus chefes desafiando com gritos que mais pareciam demônios. 
                  Disse-lhes Jararaca que Gupeva fizera aliança com o filho do trovão, e que diante dele tremera de medo e se humilhara, mas que ele, Jararaca, não tinha tais pavores, pois os raios do céu também matam alguns homens, mas não todos; e, declarando não ter medo algum de Caramuru, dizia que avançaria para ele sem tremer. 
                 Começa a batalha inaudita; com os invasores vinha um exército de mulheres guerreiras temíveis, comandadas pela afamada Guarapiranga, chamada de grã baleia; mas do lado de Gupeva um outro batalhão feminino, não menos terrível, era comandado por Paraguassú. 
                Já o sangue corre, já muitos guerreiros caem para não mais se levantarem, quando um aliado de Jararaca, lança sobre Diego um tigre amestrado para a guerra, que consigo trazia.
Uma detonação retumba nos ares; a fera cai; Diego, precipitando-se, corta-lhe a cabeça. O terror domina as ondas inimigas, que se rendem ou fogem. 
                Paraguassú faz maravilhas ao lado de Diego, valendo eles dois por todo um exército, tal é o seu valor e os fitos estupendos que praticam; porém a donzela arrojada, afastando-se de caramuru no ardor da peleja, é ferida e cai em poder dos inimigos. 
                De novo se acende a luta atroz em torno daquele troféu precioso.  Diego consegue por fim libertar a moça, e, tocando num tambor e disparando mais uma vez a espingarda, põe o inimigo em debandada e decide a sorte da batalha. Paraguassú, que desmaiara, volta a si e recompensa com um sorriso o seu libertador. 
                Mas Diego aponta a espingarda com mão e vista certa; espera a ocasião; o tiro parte; a bala atravessa a cabeça de Jararaca, que tomba como árvore derrubada. 
                Com a morte de Jararaca e o desbarato das canoas, a vitória é completa e definitiva. Todos os chefes inimigos se juntam e vem render-se a Diego, que por todos é eleito chefe supremo do sertão. 
                Tenta ele antão abolir o horrendo costume de banquete de carne humana; porém o costume e a gula são tamanhos que em tudo lhe obedecem seus vassalos, menos nisto. 
VI 
                 Vencida com espantosa vitória a grande batalha, de todos os pontos do sertão vieram chefes prestar homenagem a Caramuru e oferecer-lhe presentes.  Todos lhe traziam as filhas para ele tomar como esposa; e estas vendo Diego ficavam com ciúmes de Paraguassú, de quem desejavam a morte. A bela preferida, aborrecida de tantas e tantas contrariedades, estava ansiosa de partir com o seu noivo para a Europa. 
                Diego, preocupado com v´rios pensamentos, afastou-se um dia da taba e pelas margens do formoso e vasto rio de São Francisco se foi alongando. Procurando refúgio contra os raios do sol ardente, penetrou numa gruta ou lapa, onde ficou assombrado. Era uma vastíssima caverna cavada e trabalhada pela natureza e tinha a forma e a grandeza de um enorme templo cristão. Ali caiu Diego de joelhos, adorando o Senhor, pois em tal milagre reconheceu o sinal de que Deus não desamparava os selvagens e já se preparava para os juntar ao seu rebanho de fieis.
                Prosseguindo na sua viagem, teve Diego ocasião de salvar uns náufragos espanhóis que, vindos do Peru pelo largo do rio, demandavam novas terras. E, pouco depois, avistou uma nau francesa.  Nessa nau embarcou, levando consigo Paraguassú, com destino à Europa, pois estava cansado de tamanhas aventuras e desejoso de levar aos seus as novas terras que descobrira e dos povos que dominara. 
                Ao largar a nau, depois das despedidas, as moças que queriam casar com Diego lançaram-se no mar e a nado seguiam, chorando, o navio. Uma delas, chamada Moema, agarrada ao leme, rompia em queixas que cortavam o coração; e por fim fundou-se nas ondas, e as outras, a nado, desconsoladas retrocederam à praia.  (Este episódio de Moema é um dos mais belos de todo este maravilhoso poema épico).
                Navegava o navio com bonança, e o comandante francês,sentado á popa, ia perguntando muitas coisas a Diego, que respondendo-lhe, narrava sua descoberta do Brasil e a divisão do mundo que o Papa fizera entre portugueses e espanhóis. E descreveu-lhe as diferentes províncias brasileiras, cada qual com a sua formosura e riqueza espantosas. Narra também a chegada ao Brasil do grande Cabral, que logo na nova terra descoberta fez erguer o sagrado lenho e celebrar um ofício divino e que os nativo, ainda que não compreendendo a sua significação, assistiram com grande respeito. 
                Conta depois a história das suas espantosas aventuras e de como assim descobrira a Bahia e novas terras e povos. 
VII
                Foi no outono que chegou à França o navio que levava Diego e a gentil Paraguassú. Reinava então Henrique II, casado com Catarina de Médicis. 
                Paraguassú, ao ver os palácios, as torres, a casaria, os vestuários e todos os luxos e movimento da cidade importante e civilização que era Paris, ficou estupefata de admiração e só nos olhos se lhe conhecia vida, pois parecia ter perdido o entendimento. 
                Logo, em Paris, se espalhou a fama de tal chegada. Diziam que Diego era o rei do Brasil e Paraguassú a rainha, e de todos os pontos da cidade acudia o povo para vê-los. 
               Foram recebidos pelos reis no meio da sua suntuosa corte e ali Diego contou as suas aventuras e disse-lhe que Paraguassú, que o acompanhava,  era princesa ilustre da sua tribo e que desejava abraçar a fé de Cristo. 
                Catarina de Médicis ofereceu-se para ser madrinha de batismo, e três dias depois,com grande suntuosidade,  Paraguassú banhou-se na água benta de um dos maiores templos de Paris, recebendo de sua augusta madrinha o nome de Catarina Alves. Com esse nome ficou sendo chamada aquela a quem a Bahia reconhece como sua fundadora. 
                Seguiu-se à importante cerimônia do batismo um grande banquete no paço do rei; e depois os reis determinaram receber o casal em audiência privada. 
                Nessa ocasião Henrique II manifestou a Caramuru o seu desejo de o ouvir sobre o que sabia sobre o Brasil. Obedecendo, Diego começa fazendo uma exposição da geografia do Brasil e dos hábitos e costumes das raças humanas que lá vivem. Descreve as províncias imensas, os enormes e majestosos rios, as florestas riquíssimas; e conta os usos estranhos, as tradições, a vida dos povos selvagens.  Passa em seguida a narrar quais os vegetais que lá abundam, as flores mimosas ou magníficas, os frutos abundantes e deliciosos, as preciosas madeiras seculares, os animais estranhos e variados da terra, do mar e dos rios , as aves multicolores, os inúmeros mariscos e as grandes baleias. 
                  Havia três anos que Diego chegara à França com o sentido de encontrar nesta viagem qualquer maneira de poder reformar os bárbaros costumes dos selvagens. lembrando-se sempre daquela pobre gente, meditava no regresso, a fim de prosseguir na sua vontade de salvar os selvagens da sua triste condição. 
                   Foi então que o rei Henrique lhe ofereceu auxílio, forças, apoio e recompensa se ele aceitasse ir ao Brasil por conta da França. Diogo agradeceu, mas recusou, pois antes de tudo era português e a Portugal pertenciam as terras brasileiras que descobrira. Admira Du-Plessis, o capitão do navio que o trouxera, a sua nobre atitude, e associa-se à sua nova empreitada. Parte a nau levando a seu bordo Diego e Paraguassú. Não longe iam já do Equador quando Paraguassú, que orava, caiu num êxtase, não sabendo os que a rodeavam se era desmaiada ou morta, e assim esteve muitas horas transfigurada. 
                   Voltado a si, narra a todos a estranha visão que tivera. Vira o futuro; a Bahia transformada numa grande e vistosa cidade; depois a invasão dos franceses e as horríveis guerras que se lhe seguiriam, distinguindo-se nelas vários heróis portugueses: Pedro Lopes de Souza, Luiz de Mello e Silva, Cristóvão Jacques, Mendo de Sá, Estácio de Sá, e outros, até que os invasores franceses foram expulsos e abatidos, e a voz do Evangelho domina na branda paz, espraiando-se pelas almas escuras que ilumina. Esta paz bendita durou setenta anos. Porém, eis que chega agora novo bando de invasores sequiosos das riquezas do Brasil. desta vez são os holandeses. Novas batalhas e novos heróis surgem, tais como o destemido Furtado de Mendonça, Menezes e outros. 
                  E estando Paraguassú neste ponto da sua narrativa, que todos escutam com assombro, de súbito se levanta medonha tempestade que a interrompe, correndo os marinheiros e Diogo às manobras. 
IX
                  Serenada a tempestade e branda a noite, todos se juntaram novamente, ardendo de curiosidade, em torno de Paraguassú, pedindo-lhe que continuasse a narrativa da sua visão. 
                  É aqui que ela conta a grande guerra com os holandeses, que durou quinze anos com alternativas de vitórias e derrotas, renascendo constantemente o valor português,  ao qual se unia o invencível valor dos povos brasileiros, de Mathias de Albuquerque, João Fernandes Vieira, e os dois heróis imortais Camarão e Henrique Dias. Termina por fim a tremenda luta pelo desbarato completo dos holandeses, que, desanimados, desistem da tentativa temerária e deixam o Brasil na paz e liberdade bem merecidas. 
                  Viu Paraguassú no seu sonho muitas coisas notáveis; viu no Brasil prósperas províncias e cidades soberbas nascer e crescer; e famosos vice-reis e prelados ilustres. 
                  Neste ponto se cala a bela Paraguassú e em novo êxtase a arrebata nova visão. Assim a deixam, esperando em breve ouvir a narrativa do sonho que a vontade celeste lhe envia. 
X
                   Terminando o seu delírio santo, conta Paraguassú o que em sonhos viu. Teve a visão divina da Virgem Mãe de Deus com seu filho celeste nos braços; e Nossa Senhora falando-lhe, disse que a tornaria a ver a terra brasileira e que a veria próspera e feliz, mas que fizesse restituir a sua santa imagem roubada e a entregasse ao culto. 
                  Todos comentavam esta visão sem a entenderem, quando, estando já à vista a terra brasileira, uma vela se aproximou do navio; dentro da embarcação vinham dois espanhóis  Gonçalez e Garcez, dois dos que Diogo salvara do naufrágio no rio, havia bastante tempo. Logo se abraçaram comovidos, e Garcez contou como de Portugal, onde tinha chegado a noticia mandada por Caramuru da sua descoberta da Bahia, haviam enviado uma nau com Pereira Coutinho destinada a fazer a conquista da Bahia. Porém os selvagens, que a principio o receberam muito bem e aceitaram suas leis e ensino de que logo no país todo se sentiu a benéfica influência, em breve, por discórdias e intrigas se tornaram inimigos. De uma vez em que Pereira Coutinho, no seu navio abordava à praia no meio de denso nevoeiro, a embarcação bateu numa rocha, onde se desfez, e então, conforme de costume, os selvagens  atacaram à gente branca, chacinando-a e devorando-a em grande parte, sendo uma das vítimas o grande Coutinho, o celebrado herói do Malabar!
                   Animou Diego com palavras de  conforto o bom Garcez, que chorava. 
                   Entretanto a nau entrava no recôncavo da Bahia e os nativos, aproximando-se e reconhecendo Caramuru e Paraguassú, recebiam-nos com mostras de grande contentamento. 
                  Du Plessis, o comandante francês, começa a fazer o seu comércio, trocando mercadorias que trazia por várias madeiras que os indígenas  iam carregando no navio, quando um selvagem, vendo numa capela interior da embarcação uma imagem da Virgem, a roubou e levou para terra. 
                  Diogo e Paraguassú, que presenciaram o roubo, entenderam então  a visão e caíram de joelhos, agradecendo a deus tal milagre, pois Paraguassú reconhecera na imagem a figura exata que em sonhos vira. 
                  Correu a abraçar e beijar e  adorar a imagem  santa; e os selvagens, admirados com fervor dos sentimentos religiosos que ela manifestava, começaram a imitá-la, pois bem sentiam que tal figura era objeto digno de veneração. Dizem assim as estrofes do poema: 
Carrega entanto o lenho desejado 
A nau de Du-Plessis, que Diego estuda, 
Que deseja em toda a terra obsequiado, 
Dando-lhe ao talho da madeira ajuda; 
Um carijó porém nisto empregado, 
Enquanto a carga em toda a nau se muda, 
Uma imagem roubou formosa e bela, 
Que a nau venera na interior capela. 
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Observou-a Diogo na cabana
tratada dos Tupis com reverência, 
Estimando-a por coisa mais que humana, 
Que excedia dos seus a inteligência; 
Surpreendeu-se da imagem soberana
O lusitano herói; e à competência 
Com eles venerando a Mãe Divina
Chama a vê-la a piedosa Catarina. 
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Pôs-lhe os olhos a dama; e transportada
"Esta é (disse) é esta a grã senhora
Que vi no doce sonho arrebatada. 
Mais que o sol pura, mais gentil que a aurora; 
Eis aqui! esta é a imagem venerada; 
Este era aquele roubo; entendo agora. 
Oh, minha grande sorte! Oh, imensa dita!
Isto me quis dizer a Mãe bendita!".
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Dizendo assim com ânsia fervorosa
Prostrada abraça a imagem venerada; 
Beija-a, aperta-a, de gosto lacrimosa.
Mil saudosos ais ao céu lhe manda: 
"Aqui vos venho achar, Mãe piedosa, 
No meio (disse) desta gente infanda!
Infanda, como eu fui se o vosso lume
Não me emendara o bárbaro costume." 
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Olha entanto suspensa a gente bruta, 
E os excessos que vê cuidando admira;
Nem concebe nas vozes que lhe escuta
Se prazer seja, se de dor suspira; 
Quanto à dama piedosa obrando vira
Qualquer imitação fazer deseja, 
E este a adora, outro abraça, e aquele a beija. 
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O lusitano e fraco religioso
Veneraram com fé prodígio tanto, 
Lembrando-se do roubo portentoso
Com claro indício de presagio santo, 
Enquanto o brutal povo numeroso
Tudo nota em um êxtase de espanto, 
Até que a um templo em pompa veneranda
A pia multidão a imagem manda. 
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                  Foi esta a primeira imagem de Virgem que apareceu em terra brasileira. Foi aclamada sob a invocação de Senhora da Graça, protetora da Bahia. neste grande festejo se empenhava a turba, quando se ouviu uma salva estrondosa e se avistou uma grande armada que demandava o porto. Era Thomé de Souza que chagava do reino, mandado pelo rei de Portugal como governador da Bahia. 
                  Fez então uma grande cerimônia em que  a bela Paraguassú, aparecendo coroada de plumas e com o marraque por cetro na mão, em todo o esplendor  da sua realeza, fez uma fala solene ao seu povo, anunciando-lhe paz e prosperidade sob o jugo doce e paternal da grande nação lusa, que estendia o seu império até aos confins do mundo. 
Findo o seu discurso, tirou a coroa, que entregou a Souza, assim como o marraque, insígnia de soberania, e, descendo do trono, para lá convidou o governador a subir e lhe prestou homenagem. 
                  Diogo então aclamou o rei  na pessoa do governador, e os selvagens compreenderam que Thomé de Souza era agora a quem eles deveriam obediência. 
                  A estrofe sobre este momento é a seguinte:
Logo o Caramuru na língua do estilo
das naturais falando ao chefe novo, 
Posto tudo em silêncio para ouvi-lo, 
O escudo da Bahia mostra ao povo; 
A pomba de Noé, que ao noto asilo
Com ramo de oliveira vem de novo, 
Dando a entender a paz que à crua gente 
Com a fé dispensava o rei clemente. 
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                 Entrou a Bahia num período de prosperidade, e os missionários  espalharam a doutrina cristã, abrandando-se os costumes e aceitando aqueles povos a civilização sem serem oprimidos pelos colonos. 
                  Thomé de Souza publica um decreto real em que é mandado honrar na colônia Diego Alvares Correia, que vive feliz com sua esposa, e por todos é estimado. 
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Pesquisa, resumo e adaptação do poema por
Nicéas Romeo Zanchett 
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BREVE BIOGRAFIA DE SANTA RITA DURÃO 
                  O frei José de Santa Rita Durão, nasceu em Cata Preta, em 1722. Foi um religioso agostiniano brasileiro do período colonial, orador e poeta. É também considerado um dos precursores do indianismo no Brasil. Caramuru foi seu poema épico e a primeira obra narrativa escrita a ter como tema o habitante nativo do Brasil; Foi inspirada e escrita no estilo de Luiz de Camões.  Estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro até os dez anos de idade, partindo em seguida para a Europa, onde se tornara padre agostiniano. Doutorou-se em Filosofia e Teologia pela Universidade de Coimbra e, em seguida, lá ocupou uma cátedra de Teologia. 
                   Em Coimbra, durante o governo de Pombal, foi perseguido e teve de abandonar o país. Trabalhou em Roma como bibliotecário durante mais de vinte anos, até a queda de seu grande inimigo Pombal, quando então pode voltar para Portugal.  Esteve também na Espanha e na França. 
                   Com a queda de Pombal aconteceu a restauração da cultura passadista, e a sua principal atividade passou a ser a redação de Caramuru, publicado em 1781. Esta obra é seu grande poema  épico de dez cantos, que foi influenciado pelo modelo camoniano. Formado por oitavas e criadas e incluindo informação erudita sobre a flora e fauna  brasileiras, como também sobre os índios e sua cultura. Conta-se, entretanto, que sua obra seria muito maior, mas como a reação da crítica e do público foi muito fria, ele teria destruído o restante da obra poética. 
                    Morreu em Lisboa no dia 24 de Janeiro de 1784. 
Nicéas Romeo Zanchett