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quinta-feira, 27 de junho de 2013

UM HOMEM DE CONSCIÊNCIA - por Monteiro Lobato


HUM HOMEM DE CONSCIÊNCIA 
de Cidades Mortas 
Por Monteiro Lobato

                     Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro. 
                     Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis sequer o que todos ali queriam; mudar-se para terra melhor. 
                     Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o desaparecimento visível de sua Itaoca. - Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve médicos bem bons - agora só um e bem ruinzinho. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para rábula ordinário como Teodoro. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que precisa se mudá. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaóca está se acabando...
                      João Teodoro entrou a incubar a ideia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato  qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaóca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível. 
                      - É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaóca não vale mais  nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui. 
                      Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada... 
                      Ser delegado numa cidadinha daquelas é coisa raríssima. Não há cargo mais importante. É o homem  que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado - e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaóca!... 
                       João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. 
                       Pela madrugada botou-as num burro, montou no seu cavalinho magro e partiu.
                       Antes de deixar a cidade foi visto por uma amigo madrugador.
                       - Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens? 
                       - Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaóca chegou mesmo ao fim. 
                       - Mas, como? Agora que você está delegado? 
                       - Justamente por isso.  Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. 
                       - Adeus. 
                       E sumiu. 
  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A ÁRVORE QUE CANTA - Por Coelho Netto


A ÁRVORE QUE CANTA
Por Coelho Netto 
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                 Certa manhã o rei, que prometera a mão da princesa a quem conseguisse chegar ao reino das fadas, foi avisado de que certo mancebo desejava falar-lhe para referir episódios maravilhosos da viagem que empreendera ao país encantado, onde mortal algum jamais chegara. 
                 O rei ficou em alvoroçada curiosidade e todos os áulicos agitaram-se com a noticia, sendo imediatamente despachada  ordem para que o mancebo fosse introduzido na sala do trono, onde o monarca o esperava entre nobres da sua corte. 
                 A princesa não desviava os lindos olhos da porta por onde devia entrar o ousado moço que, por seu amor, arriscara a vida entre gnomos e dragões, que tais eram os guardas das sete portas de bronze da capital do reino das fadas, e sorriu alegremente comovida, com duas rosas  vivas nas faces, vendo aparecer o herói, que era jovem, formoso e gentil. 
                 Inclinando-se graciosamente diante do rei e daquela  que seria sua, se as provas confirmassem o que alegara, pôs-se a narrar a sua viagem, longa e penosa, por entre penhascos, através de campinas eriçadas de espinheiros, cheia de episódios interessantes, aos quais nem faltaram combates que teve de travar com anões que surgiram, aos milhares, das moitas de violetas, com um sonho impertinente  que era a voz das suas tubas, enristando espinhos, que eram as suas lanças. 
                  Descreveu os imensos e alfombrados jardins, as fulgurantes montanhas de cristal, os vastos palácios de jaspe e ônix, sustentados por fortes colunas de pórfiro e ladrilhados a ágatas e topázios.
                  Falou dos gigantes, altos como torres, que guardavam rebanhos de carneiros de velo de seda lustrosa  e chavelhos de ouro; falou das formosas mulheres, que tanta vez admirara nos prados floridos, banhando-se nas manhãs ribeiras coalhadas de nenúfares, adereçando ginetes mais alvos do que a neve ou remontando-se, em carros prefulgentes que eram puxados por águias brancas. 
                   Todos ouviam-no interessados e, ao cabo da narração, como o rei pedisse uma prova, porque não bastavam palavras, mostrou o moço uma romam de ouro, cujas bagas era preciosos rubis, dizendo have-la colhido no pomar  do palácio da rainha das fadas. 
                    O rei e a princesa admiraram o formoso fruto quando um dos cortesões, homem invejoso e que também pretendia a mão da donzela real, adiantou-se dizendo:  
                   - O fruto é lindo, senhor, mas bem pode ter saído da oficina de algum ourives. Se veio de galho de árvore outros iguais tenho visto em montras e joalheiros. 
                   Todos os cortesões concordaram com o fidalgo, mas o rei, que simpatizara com o mancebo, pediu-lhe outra prova do que dissera. 
                   - Senhor, disse o jovem, tenho comigo o bastante para convencer, não só a V. Majestade, como a todos os nobres da côrte.  E, fitando os olhos no invejoso, perguntou: 
                   - No vosso andar pelo mundo já vistes, por acaso, alguma árvore que cantasse, desferindo acentos tão suaves como os desfere a mais afinada garganta? 
                   - Confesso que ainda não vi, não pôde deixar de responder o odioso fidalgo. 
                   E todos entreolharam-se com visíveis sinais de dúvida,  alguns sorriram, tomando, talvez, por louco ao moço pretendente. Ele, porém, tirando do bolso de sua veste uma semente, apresentou-a ao rei dizendo: 
                   - Senhor, foi no parque da rainha das fadas que vi e ouvi a árvore que canta. Era linda a noite; de luar e animada pelos silfos luminosos, pequenos como lavandiscas, que iam duma a outra flor. Uns sentavam-se nas pétalas, outros escondiam-se nas corolas, rindo. Eu caminhava quando ouvi o canto delicioso. 
                    Julguei, a princípio, que era uma das fadas que desafiava  os rouxinóis, mas um elfo esvoaçou sussurrando a uma pequena sílfide:  "É a árvore que canta." E eu, seguindo-lhe o voo, cheguei ao sítio onde ficava a árvore e, toda a noite, deliciado, deixei-me estar a ouvi-la, até que a manhã rompeu e a árvore se calou. 
                    Trago comigo uma semente da árvore que canta. plantai-a no vosso parque e, antes de uma semana, tereis a árvore frondosa, provando, com seus gorjeios, a verdade  do que vos disse. 
                    Aceitou o rei a proposta. mas o invejoso fidalgo, que só pensava em desfazer-se do rival, que tão depressa conquistara as graças da princesa, disse severamente: 
                    - Senhor: é justo que se faça a experiência, mas, para que se não diga que fostes vitima de um embusteiro, que se lhe dê um prazo improrrogável ao fim do qual lhe caiba o prêmio ou seja punido como merece ser todo aquele que mente ao seu rei. 
                    - Dou-lhe um mês, disse o soberano.
                    - Dois, delongou a princesa. Mas o mancebo replicou: 
                    - Basta-me uma semana, nem mais um dia requeiro. Se ao fim do prazo, não se houver realizado o que eu disse, que o carrasco me venha buscar na prisão em que devo ficar. E, assim dizendo, entregou ao rei a semente preciosa. 
                    - Planta-a tu mesmo, disse o monarca ao invejoso. Planta-a no parque, perto das janelas dos meus aposentos, para que eu seja o primeiro a ouvir-lhe o canto. 
                    E o mancebo, que se sujeitara à condição, desceu, entre guardas, para a prisão do palácio. 
                     De posse da semente maravilhosa, o cortesão perverso desceu ao parque com toda a côrte e, enquanto o jardineiro abria a cova, pode, sorrateiramente, substituir a semente por um seixo que foi logo coberto sem que os do grupo dessem pela troca e, certo da vitória, voltou-se radiante, dizendo:
                      Dentro de uma semana teremos uma árvore a cantar, se a não tivermos lá fora, ao sol, balançando um corpo no seu galho seco. Referia-se à força em que deveria ser justiçado o seu formoso rival. 
                       Recolhendo ao seu palácio, desceu ao subterrâneo e lá, bem no fundo, cavando um fosso, deixou ficar a semente,  cobrindo-a com terra e pedregulhos para que não vingasse e, tranquilo - porque tinha por inevitável a morte do mancebo - subiu, dizendo que fora à adega escolher um vinho precioso para oferecer ao rei no dia do seu próximo aniversário. 
                      Todas as manhãs a princesa, muito interessada na vitória do mancebo e também curiosa de ouvir o canto da árvore, abria a janela e, nada ouvindo, descia ao parque e ia examinar o sítio em que fora plantada a semente. Nada! E a princesa chorava pesarosa, lamentando que tão  corajoso moço acabasse na forca por seu amor. 
                      Os cortesões sorriam. O próprio rei, impaciente, não ocultava o seu despeito, louvando a sutileza do fidalgo que o ia vingar exemplarmente da mistificação do embusteiro. 
                      - Que morra! bradava enfurecido. 
                      E os dias se passavam. 
                      Na véspera de findar  o prazo foram á prisão e acharam  o moço dormindo tão tranquilamente que os próprios guardas tiveram pena de despertá-lo. Mas o fidalgo, para gozar a sua crueldade, chamou-o: 
                      - Eh! amigo, expira amanhã o prazo que pediste e da árvore não há sinal na terra do parque. Andam operários na praça a levantar a forca em que, ao romper da alva, se fará justiça ao teu procedimento vil. 
                     Os olhos do mancebo relampejaram de ódio. Logo, porém, contendo-se, respondeu serenamente ao fidalgo: 
                     - Se a semente foi plantada, a árvore cantará antes da minha morte. 
                     E, de novo, deitou-se nas palhas do cárcere. 
                     Ao alvorecer do dia fatal, as trombetas soaram chamando os burgueses à grande praça onde fora levantada a forca. A tropa estendia-se em duas alas, desde o palácio real até ao sítio do suplício. As janelas ficaram apinhadas de curiosos e era tão grande a aglomeração nas ruas que iam ter à praça, que os soldados dificilmente mantinham as posições, sendo, às vezes, forçados a repelir a turba com violência para contê-la a distância, deixando livre a passagem  por onde devia transitar o sinistro cortejo. 
                     O palácio do invejoso dava a frente para a praça, fronteiro ao paço em cujo balcão o rei e a princesa, cercados de camaristas e damas, esperavam o condenado. Ao clangor das tubas, o povo ondulou, apertando-se mais e mais, e logo apareceu a carreta em que vinha o mancebo, de alva, manietado, entre soldados que empunhavam lanças. Um esquadrão de  cavalaria acompanhava o trágico veículo. Justamente quando chegava à forca, o mancebo estremeceu e, no silêncio comovido que se fizera, ouviram todos uma voz  suavíssima, cantando. O condenado sorriu e, erguendo os olhos para o balcão real disse: 
                    - Senhor, é a árvore que canta, Escutai-a.  
                    E todos, extasiados, procuravam a direção do canto. 
                    O fidalgo, pouco antes alegre w triunfante, empalidecia à janela do seu palácio, e a voz, cada vez mais meiga, soava docemente. De repente alguém disse na multidão, apontando o palácio do invejoso: 
                    - É dali que vem o canto!
                    E a turba imensa avançou contra o palácio, aos brados; mas as portas, que eram de bronze, resistiram ao choque. 
                    O rei, então, que começava a suspeitar do fidalgo, desceu  à praça e entre os seus arqueiros, intimou o vassalo a abrir-lhe as portas. O miserável obedeceu, recebendo o monarca no vestíbulo, zumbrido, com um suor gelado a escorrer-lhe a fronte. E a voz, cada vez mais suave, encantava com a sua melodia. 
                    - Quem canta no teu palácio? perguntou o rei serenamente. Dize a verdade se não queres que os meus arqueiros te levem arrastado ao patíbulo que fizeste levantar na praça. 
                    - Senhor, é a árvore que canta. 
                    - Onde a plantaste? 
                    - No subterrâneo do palácio.
                    - Leva-me quero vê-la. 
                    Caminhando humilde, o fidalgo desceu à cave tenebrosa e úmida, precedendo o rei a a sua comitiva, e lá estava a árvore frondosa, verde, florida e cantando. 
                    - E que plantaste no parque real? 
                    - Um seixo, senhor. 
                    E sem achar palavras para defender-se, o vilíssimo homem  prostrou-se aos pés do rei, pedindo apenas a vida.
                    O soberano desprezou-o e, subindo em passos ligeiros,  atravessou a praça, ordenando que conduzissem à sua presença  o moço condenado. A princesa exultava e maior foi a sua alegria quando, ao aparecer o moço, o rei o levou ao balcão, apresentando-o ao povo como - o prometido noivo de sua filha. Estrugiram aclamações e, se não fosse a soldadesca, o palácio do invejoso teria sido varejado pela multidão indignada.    
                    E a árvore cantava docemente e o seu canto vencia o vozear da turba. Bem dissera o moço: "Se a semente foi plantada, a árvore cantará antes da minha morte." 
                    A verdade é como a semente da árvore que cantava; traiam-na com os sofismas, abafem-na da luz, que ela rebentará fulgurante, dando a vitória à justiça e confundindo o traidor. 
          BREVE BIOGRAFIA 
          Henrique Coelho Netto, escritor e romancista brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão, em 1864. Pertenceu á Academia Brasileira de Letras. A sua obra muito extensa, compreende mais de sessenta trabalhos, entre romances, novelas, contos e obras de teatro. Foi professor no Ginásio do Rio de Janeiro. Escreveu: "Rapsódias", Contos; "A Capital Federal", romance; "praga", novela; "Baladilhas", contos; "Inverno em Flor", romance; "O Morto", romance; "A Descoberta da Índia", narrativa histórica, etc. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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terça-feira, 21 de maio de 2013

UMA GALINHA - Por Clarice Lispector

UMA GALINHA 
Por Clarice Lispector
               Era uma galinha de domingo. Ainda vivia porque não passava de nove horas da manhã. 
               Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
               Foi pois uma surpresa quando a viram  abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou - o tempo da cozinheira da um grito - e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro voo desajeitado, alcançou o telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de um chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha:  em pulos cautelosos alcançou o telhado onde  esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. À perseguição tornou-se mais intensa. De telhado e telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça.  O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito da conquista havia soado. 
               Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. 
               Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. 
                Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. 
                 Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pareci uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:  - Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem! 
                  Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nuca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão: 
                 - Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida.
                 - Eu também! jurou a menina com ardor. 
                 A mãe, cansada, deu de ombros. 
                 Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava. "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a de sobressalto. 
                Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga - e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausando como um campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado. 
                Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anuncia. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas,  ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vaza cabeça se alterasse. Na fuga,no descanso, quando deu à luz ou bicando milho - era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos. 
                 Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos. 
OBSERVAÇÕES:
             A bela construção das frases é o que mais fascina e fixa o leitor nos textos da Clarice.  A galinha, protagonizadora central, é apenas a aparência de galinha; funciona como uma reflexão ou refração da psicologia das pessoas que a circundam; com sua arte a autora desloca o o eixo da atenção para o animal, mas seu objetivo é detectar uma reação vivencial em face de uma situação corriqueira. É o fruto da genialidade de Clarice Lispector que, com a odisseia patética de uma simples galinha condenada a morte é projetada a uma espécie de rainha da casa. Com isso a autora nos leva a penetrar mais um pouco no grande mistério da própria existência humana.  Nessa condição o pequeno animal simbolizaria o homem à mercê de seu semelhante, do tempo e da morte inevitável. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               BREVE BIOGRAFIA:
               Clarice Lispector nasceu  na Ucrânia - cidade de Tchetchelnik em 10 de Desembro de 1925. Seus pais imigraram para o brasil quando ela estava com apenas dois meses de idade. No Recife, curça o primário e o secundário. Transferindo-se para o Rio de janeiro, ingressa na Faculdade de Direito. Forma-se em 1944, ano em que publica o primeiro livro, "Perto do Coração Selvagem", que fora muito aplaudido pela crítica. Nessa mesma época, casa-se com um diplomata e, em razão dos compromissos do marido, afasta-se do país durante longos períodos (entre 1945 e 1949) e também (entre  1952 e 1960), mas nunca deixou de dedicar-se à Literatura, produzindo livro apos livro. Tem publicados os seguintes romances: "O Lustre (1946), "A Cidade Sitiada (1949), "A maçã no Escuro" (1961), "A Paixão segundo G.H. (1964), Uma Aprendizagem ou O Livro dos prazeres (1969); livros de contos: "Alguns Contos" (1952), "Laços de Família" (1960), "A Legião Estrangeira" (1964); e também literatura infantil. 
Nicéas Romeo Zanchett 
                   

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O ENFERMO - Machado de Assis.

                               O ENFERMO - de Machado de Assis. - 
                                 Memórias Póstumas de Brás Cubas
Virgília se desfazia toda em afagos ao velho parente. Ela ia recebê-lo à porta, falando e rindo, tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o a uma cadeira, ou à cadeira, porque lá havia a "cadeira do Viegas", obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã. Ia fechar a janela próxima, se havia alguma brisa, ou abri-la, se estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não desse um golpe de ar. 
- Então? hoje está mais fortezinho...
- Qual! Passei mal a noite; o diabo da asma não me deixa. 
E bufava o homem repousando a pouco e pouco do consaço da estrada e da subida, não do caminho porque ia sempre de sege -(charrete).  Ao lado, um pouco mais para a frente, sentava-se Virgília, numa banquinha, com as mãos  nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava à sala, sem os pulos de costume, mas discreto, meigo, sério. Viegas gostava muito dele. 
- Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla algibeira, tirava uma  caixinha de pastilhas, metia uma na boca e dava outra ao pequeno. Pastilhas antiasmáticas. O pequeno diza que eram muito boas. 
Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, Virgília compria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as pedras com a mão frouxa e tardia. Outras vezes, desciam a passear na chácara, dando-lhe ela o braço, que ele nem sempre aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma légua. Iam, sentavam-se, tornavam a ir, a falar de coisas várias, ora de um negócio de família, ora de uma bisbilhotice de sala, ora enfim de uma casa que ele meditava construir, para residência própria, casa de feitio moderno, porque a dele era das antigas, contemporânea de el-rei Dom João VI, à maneira de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de São Cristóvão, com as suas grossas colunas na frente. Parecia-lhe que o casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgília chegaria a ver o que era um velho de gosto. 
Falava, como se pode supor, lentamente e a custo, intervalo de uma arfagem incômoda para ele e para os outros.
(Memórias Póstumas de Brás Cubas,  Machado de Assis).
Pesquisa e postagem > Nicéas Romeo Zanchett 
http://gotasdeculturauniversal.blogspot.com/

domingo, 10 de abril de 2011

SINHÁ - LINDA - de Guimarães Rosa





                                          SINHA - LINDA - Guimarães Rosa
E então Lélio via, na rua, o Assis Tropeiro conversando com o pai da Moça. E viu a Moça. Naquele momento, o que ele sentiu foi quase diferente de sua vida toda. A modo precisasse de repente de se ser no pino de bonito, de forçoso, de rico, grande demais em vantagens, mais do que homem, da ponta do bico da bota até o tope do chapéu.  Tinha vexame de tudo o que era e do que não era. Ave, na vivice do rosto daquela Mocinha, nos movimentos espertos de seu corpo, sucedia o resumo de uma lembrança sem paragens. Dava para em homem se estremecer mais uma ambição do que uma saudade. Ou, então, uma saudade gloriada, assim confusa. Se ela olhasse e mandasse, ele tinha asas, gostava de poder ir longe, até à distância do mundo, por ela estrepolir, fazer o que fosse, - guerrear, não voltar - essas ilusões. Ela tinha os cabelos quase acobreados, cortados curto, os pezinhos um pouquinho grandes. E nem o viu.  A tropa saia na manhã seguinte, por Paredão, depois do Lajeado. Num pronto, Lélio disse ao Assis Tropeiro uma conversa de que podia ir junto, até à Novilha Brava, de onde se apartava e torava para o norte. Veio mesmo.
A moça, com o pai, o senhor Gabino, a mãe, dona Luísa, um irmão doutor e outros dois rapazes, que eram do Rio de Janeiro. Lélio estava ali para a ver, agarrar de ver, às penas que pudesse, sempre, sempre. Vê-la, e a ouvir, bastava. Primeiro dia, da ponta de trilhos vieram até ao Lajeado. - "Será que já é o sertão?" - ela queria saber. O sertão, igual ao Gerais, dobra sempre mais para diante, territórios. - "Mas já é o Sertão, sim!" - ela queria e exclamava:  - "Tanto sol, tanta luz! Este céu é o da Itália..." Ela montava vestida de homem, como um menino. Às vezes dizia engraçadas palavras, se divertia a rodo, com os rapazes. Segundo dia, o trecho era do Lajeado ao Capão-do-Barreiro, onde tem uma vereda grande, com o buritizal, com uma lagoa. Sendo o mês de setembro, o buriti floroso - os altos cachos amarelos de ouro. - "O buriti é a palmeira de Deus!" - ela disse, disse. Lélio se lembrava dos gestos de sua mãe, e, como esses vaqueiros do Alto Urucuia, relatava coisas ao cavalo.  Mas se contentava, sem pensamento, perto de tudo. Ela estava com um plastro branco na ponta de um dedo, machucado em qualquer parte.  Seu nome era que lindo por lindo, qual retinia. No que não havia risco de ninguém ver, pois já estavam de saia, ele o escreveu, porção de vezes, nas costas das folhas das piteiras. Mas ao cavalinho pampa os nomes que dela disse foram outros: Minha-Menina, a Mocinhazinha, Sinhá-Linda... E vinham na terceira etapa - do Capão-do-Barreiro ao Paredão - lá iam demorar o inteiro de um dia, por descanso e porque a Moça queria encontrar coisas de vista. Ela era elegante sem querer, parece que nem sabiá que era.  Perguntou a Lélio o nome de um passarinho: era uma maria-tola do cerrado, ele não considerou decente responder uma bobagem dessa, achou melhor dizer que não sabia. Porque não tinha sido um sabiá ou um sofrê;  mesmo o quem-quem - que em toda baixada de campo limpo navegava, aos pares, pulando atrás dos bois? Os olhos dela rebrilhavam, reproduzindo folha de faca nova. O olhar, o riso, semelhavam a itaberaba das encostas pontilhadas de malacacheta, ao comprido sol.  Como podia se guardar tanto poder numa criaturinha tão mindinha de corpo?  Aí Lélio não queria alçar o galho, nem dar-se em espetáculo; mas carecia, necessitava de serví-la, de oferecer-lhe alguma coisa. Como viu que ela deseja sempre provar das comidas e bebidas sertanejas - achara choco o chá de congonha, mas aparecia muito  o de cagaiteira, que é dourado lindo e delicado e tem os suaves perfumes. No Porto-do-Cavalo, ele pensou  o projeto, mal pôde dormir. Acordou antes do dia, montou e galopou meia-légua, até onde estavam dizendo que se conseguia achar um doce de buriti, bom especial.  Comprou, mesmo com a tigela grande - não queria vender aquela tigela, bonita, pintada com avoejos verdes e  roxas flores. Trouxe, deu a ela, receoso, labasco, sem nenhuma palavra podida.  Ela riu, provou e sacudiu a cabecinha: disse aos rapazes que era um doce groceiro, ruim.  Nem olhara mais para Lélio. Mas ele ouviu, desriu em cara suja, e coube em si pelo resto do dia. Porém, no seguinte, na fazenda da Extrema, à tarde, por uma acaso ele pôde ver seus pezinhos, que ela lavava, à beira de água corrente. Demorou agudo os olhos, no susto de um roubado momento, e era como se os tivesse beijado: nunca antes soubera que pudesse haver uns pezinhos assim, bonitos alvos e rosados, aquela visão jamais esqueceria. Custou assentar cabeça. Modo outro não foram todos aqueles dias, que mudavam o estranho de sua vida, e eram dias desigualados, no rio rodante do mundo, da ponta das manhãs até ao subir extenso das noites, com o milmilhar de estrelas do sertão.  E força foi que enfim ela apartasse e se despedisse, no partirem do pouso na Fazenda da Novilha  Brava, depois do Ribeirão do Gado Bravo, que então ele devia beiradear, rumo das nascentes.  Até que se alegrava, nem sabia exato porque, na hora de pedir adeus. Talvez pela importância de ter de ser então notado, de poder dirigir-se altamente a ela, ele risonho e perturbado, em seu cavalo de duas cores. Tanto ela sorriu, estendeu-lhe a mãozinha abreviadamente, nem macia, perguntando-lhe mesmo por que não persistia junto, até ao Paracatu. Ah, sentia, não podia... - ele produziu de responder. Nem tudo  podia ser como nós queremos... Mas já ela se afastava, o amesquinhando, de certo, gracejava com um dos rapazes, por último que falou ainda se ouvia: - "...Mesmo porque, ora essa!..."
Um vivido. O resto era o que-ha-de-vir. Lélio não se entristecia, sabia que nunca mais havia de encontrá-la, mas tudo de começo tinha sido mesmo sem nenhuma esperança pequena, ele não era louco, o fogo é que corre com os pés para cima.  Mas também não atinava com maneira de verdade para a esquecer,  por mais difícil do que matar uma palmeira ouricuri - que até cortada e caída no chão reenraíza: guarda sua água no profundo. Pensar nela dava a sobre-coragem, um gole de poder de futuro. 
Mesmo agora, descido no comum da vida, querendo outras mulheres, de carinhos fortes; mas, depois, um instante, primeiro de dormir, pensava nela, ao acautelado, ao leve. Pensava nela, assim só como se estivesse rezando. 
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De João Guimarães Rosa.  Corpo de Baile. 
Pesquiza e postagem > Nicéas Romeo Zanchett 
http://gotasdeculturauniversal.blogspot.com/

sábado, 2 de abril de 2011

A MENINA DO LEITE



                                           A MENINA DO LEITE
Laurinha, no seu vestido novo de pintas vermelhas, chinelos de bezerro, treque,treque, treque, lá ia para o mercado com uma lata de leite à cabeça - o primeiro leite da sua vaquinha mocha. Ia contente, rindo-se e falando sozinha. 
- Vendo o leite - dizia, e compro uma dúzia de ovos. Choco os ovos e antes de um mês já tenho uma dúzia de pintinhos. Morrem...dois, que sejam, e crescem dez - cinco frangas e cinco frangos. Vendo os frangos e crio as frangas, que crescem e viram ótimas botadeiras de duzentos ovos por ano cada uma. Cinco: mil ovos! Choco tudo e lá me vêm quinhentos galos e mais outro tanto de galinhas. Vendo os galos. A dois cruzeiros cada  um - duas vezes cinco, dez... - mil cruzeiros... Posso então comprar doze porcas de cria e mais uma cabrita. As porcas dão-me, cada uma, seis leitões. Seis vezes doze...
Estava a menina neste ponto quando tropeçou, perdeu o equilíbrio e, com a lata e tudo, caiu um grande tombo no chão. 
Pobre Laurinha! 
Ergueu-se chorosa, com um ardor de esfoladura no joelho; e enquanto espanejava as roupas sujas de pó viu sumir-se, embebido pela terra seca, o  primeiro leite da sua vaquinha mocha e com ele os doze ovos, as cinco botadeiras, os quinhentos galos, as doze porcas de cria e a cabritinha - todos os belos sonhos da sua ardente imaginação... 
  Fábulas, Monteiro Lobato
Post. 
Nicéas Romeo Zanchett 
AS FÁBULAS DE ESOPO