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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O ANEL DE POLICRATES - Por Machado de Assis


O ANEL DE POLICRATES 
Por Machado de Assis
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                 A - Lá vai o Xavier. 
                 Z - Conhece o Xavier? 
                 A - Ha que anos? Era um nababo, rico, podre de rico, mas pródigo. ..
                 Z - Que rico? que pródigo? 
                 A - Rico e pródigo, digo-lhe eu. Bebia pérolas diluídas em néctar. Comia língua de rouxinol. Nunca usou papel mata-borrão, por achá-lo vulgar e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita de pó de diamante. E mulheres!  Nem toda a pompa de Salomão pode dar ideia do que era Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha grega, a tez romana, a exuberância turca, todas as perfeições de uma raça, todas as  prendas de um clima, tudo era admitido no harém do Xavier. Um dia enamorou-se loucamente por uma senhora de alto coturno, e enviou-lhe de mimo três estrelas do Cruzeiro, que então contava sete, e não pense que o portador foi um dos arcanjos de Milton, que o Xavier chamou na ocasião em que ele cortava o azul para levar a admiração dos homens ao seu velho pai inglês. Era assim o Xavier.  Capeava os cigarros com um papel  de cristal, obra finíssima, e, para acendê-los, trazia consigo uma caixinha d raios de sol. As colchas da cama eram nuvens purpúreas, e assim também a esteira que forrava  o sofá de repouso, a poltrona da secretária e a rede. Sabe quem lhe fazia o café de manhã? A Aurora, com aqueles mesmos dedos cor de rosa, que Homero lhe pôs. Pobre Xavier! Tudo oque o capricho e a riqueza podem dar, o raro, o esquisito, o maravilhoso, o indescritível, o inimaginável, tudo teve e devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom coração. Ah! fortuna, fortuna! Onde estão agora as pérolas, os diamantes, as estrelas, as nuvens purpúreas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por água abaixo; o néctar virou zurrapa, os coxins são a pedra dura da rua, não manda estrelas às senhoras, nem tem arcanjos às suas ordens... 
                 Z - Você está enganado. O Xavier? Esse Xavier há de ser outro. O Xavier nababo! Mas o Xavier que ali vai nunca teve mais de duzentos mil réis mensais; é um homem poupado, sóbrio, deita-se com as galinhas, acorda  com os galos, e não escreve cartas a namoradas, porque não as tem. Se alguma expede aos amigos é pelo correio. Não é mendigo, nunca foi nababo. 
                 A - Creio; esse é o Xavier exterior. Mas nem só de pão vive o homem. Você fala de marta, eu falo-lhe de Maria; falo do Xavier especulativo... 
                 Z - Ah! - Mas ainda assim, não acho explicação; não me consta nada dele. Que livro, que poema, que quadro... 
                 A - desde quando o conhece?  
                 Z - Ha uns quinze anos.
                 A - Upa! Conheço-o ha muito mais tempo, desde que  ele estreou na rua do Ouvidor, em pleno marquês do Paraná. Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as coisas possíveis,  e até contrarias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma história, um libelo político, uma viagem à Europa, outra ao sertão de Minas, outra á lua, em certo balão que inventara, uma candidatura política, e arqueologia, e filosofia, e teatro, etc., etc., etc. Era um saco de espantos.  Quem conversava com ele senti vertigens. Imagine uma cachoeira de ideias e imagens, qual mais original, qual mais bela, às vezes extravagante, às vezes sublime. Note que ele tinha a convicção dos seus mesmos inventos.  Um dia, por exemplo, acordou com o plano de arrasar o morro do castelo, a troco das riquezas que  os jesuítas ali deixaram, segundo o povo crê. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objetos, deu-me dois tocheiros de ouro...
                 Z - Realmente... 
                 A - Ah! impagável. Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do cônego Benigno, e resolveu ir  logo ao sertão da Bahia, procurar a cidade misteriosa. Expôs-me o plano, descreveu-me a arquitetura provável da cidade, os templos, os palácios, gênero etrusco, os rito, os vasos, as roupas, os costumes...   
                 Z - Era então doido? 
                 A - Originalzão apenas? Odeio os carneiros de Panurgio, dizia ele, citando Rabelais: Comme vous sacavez estre du mouton le naturel, tousjours suivre le premier, quelque part qu'il aille. Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes de comer um mau bife em mesa separada. 
                 Z - Entretanto gostava da sociedade.
                 A - Gostava da sociedade, mas não amava os sócios.  Um amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que lhe respondeu? Respondeu com um apólogo, em que cada sócio figurava ser uma cuia de água, e a sociedade uma banheira. - Ora, eu não posso lavar-me em cuias de água, foi a sua conclusão. 
                 Z - Nada modesto. Que lhe disse o Pires? 
                 A - O Pires achou o apólogo tão bonito que o meteu numa comédia, de aí a tempos. Engraçado é que o Xavier ouviu o apólogo no teatro, e aplaudiu-o muito, com entusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a voz do sangue... Isto leva-me à explicação da atual miséria do Xavier.
                 Z - É verdade, não sei como se possa explicar que um nababo... 
                 A - Explica-se facilmente. Ele espalhava ideias à direita e à esquerda, como o céu chove, por uma necessidade física, e ainda por duas razões. A primeira é que  era impaciente, não sofria a gestação indispensável à obra escrita. A segunda é que varria com os olhos uma linha tão vasta de coisas, que mal poderia fixar-se em qualquer delas. Se não tivesse o verbo fluente, morreria de congestão mental; a palavra era o derivativo. As páginas que então falava, os capítulos que lhe borbotavam da boca, só precisavam de uma arte de os imprimir no ar, e depois no papel, para serem páginas e capítulos excelentes, alguns admiráveis. Nem tudo era límpido; mas a porção límpida superava a porção turva, como a vigília de Homero paga os seus cochilos.  Espalhava tudo, ao acaso,às mãos cheias, sem ver onde as sementes iam cair; algumas pegavam logo...
                 Z - Como a das cuias.
                 A - Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paixão das coisas belas, e, uma vez que a árvore fosse pomposa e verde, não lhe perguntava nunca pela semente sua mãe. Viveu assim longos anos, despendendo à toa, sem cálculo, sem fruto, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro pródigo. Com tal regime, que era a ausência  de regime, não admira que fosse pobre e miserável. Meu amigo, a imaginação e o espírito tem limites; a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conheço inesgotável debaixo do sol.  O Xavier não só perdeu as ideias que tinha, mas até exauriu a faculdade de criar; ficou oque sabemos. Que moeda rara se lhe hoje nas mãos? que sestércio de Horácio? que drama de Péricles? Nada. Gasta o seu lugar-comum, rafado das mãos dos outros, come à mesa redonda, fez-se trivial, chocho...
                 Z - Cuia, emfim. 
                 A - Justamente: cuia. 
                 Z - Pois muito me conta. Não sabia nada disso. fico inteirado; adeus. 
                 A - Vai a negócio? 
                 Z - Vou a um negócio. 
                 A - Dá-me dez minutos? 
                 Z  - Dou-lhe quinze. 
                 A - Quero referir-lhe a passagem mais interessante da  vida de Xavier. Aceite o meu abraço, e vamos andando. Vai para a praça? Vamos juntos. Um caso interessantíssimo. Foi ali por 1869 ou 70, não me recordo; ele mesmo é que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o cérebro gasto, chupado, estéril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora, - "uma bonita rosa"; falava do luar saudoso, do sacerdócio da imprensa, dos jantares opíparos  sem acrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. Começara a ficar hipocondríaco; e, um dia, estando à janela, triste, desabusado das coisas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavalo. De repente, o cavalo corcoveou, e o taful veio quase ao chão; mas sustentou-se,   e meteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue frio, a arte do cavaleiro.  Então, o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro não tivesse ânimo nenhum; não quis cair diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavalo. E dai veio uma ideia;comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e acrescentou sentenciosamente: "Quem não for cavaleiro, que o pareça." Realmente, não era uma ideia extraordinária; mas a penúria do Xavier tocara a tal extremo, que esse cristal pareceu-lhe um diamante. Ele repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de vários modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a definição, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.; e tão alegre, tão alegre como a casa de pobre em dia de peru. De noite, sonhou que efetivamente montava um cavalo manhoso, que este pinoteava com ele e o sacudia a um brejo. Acordou triste; a manhã, que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; meteu-se a ler e a cismar. Então lembrou-se... Conhece o caso do anel de Policrates? 
                 Z - Francamente, não. 
                 A - Nem eu; mas aqui vai oque me disse Xavier. Policrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que começou a recear alguma viravolta da Fortuna, e, para aplacá-la antecipadamente, determinou fazer um grane sacrifício; deitar ao mar o anel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna estava tão apostada de cumulá-lo de obséquios, que o anel foi engulido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou à posse do anel. Não afirmo nada a respeito desta anedota; foi ele quem me contou, citando Plínio, citando... 
                 Z - Não ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, não a um cavalo, mas... 
                 A - Nada disso. Não é capaz de adivinhar o plano estrambólico do pobre diabo. Experimentemos a fortuna, disse ele; vejamos se a minha ideia, lançada ao mar, pode tornar ao meu poder, como o anel de Policrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo será tal, que nunca mais lhe ponha a mão. 
                 Z - Ora essa!
                 A - Não é estrambótico? Policrates experimentara a felicidade; o Xavier quis tentar o caiporismo; intenções diversas, ação idêntica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assunto, e acabou dizendo oque era a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e quem não for cavaleiro que o pareça. Dita assim, esta frase era talvez fria; por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos anos, o malogro dos esforços  ou antes, os efeitos da imprevidência, e quando o peixe ficou de boca aberta, digo, quando a comoção do amigo chegou ao cume, foi que lhe atirou o anel, e fugiu a meter-se em casa. Isto que lhe conto é natural, crê-se, não é impossível; mas agora começa a juntar-se à realidade uma alta dose de imaginação. Seja o que for, repito oque ele me disse. Cerca de três semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no Leão de Ouro ou no Globo, não me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma frase sua, talvez com uma troca de um adjetivo. " Meu pobre anel, disse-lhe ele, eis-te emfim no peixe de Policrates." Mas a ideia bateu as asas e voou, sem que ele pudesse guardá-la na memória. Resignou-se.  Dias depois, foi convidado a um baile; era um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente distinção nobiliária. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o sorvete e o chá ouviu um grupo de pessoas que louvava a carreira do barão, a sua vida próspera, rígida, modelo, ouviu compara o barão a um cavaleiro emérito. Pasmo dos ouvintes, porque o barão não montava a cavalo. Mas o panegirista explicou que a vida não é mais do que um cavalo xucro ou manhoso, sobre o qual ou se há de ser cavaleiro ou parecê-lo, e o barão era- excelente. " - Entra, meu querido anel, disse Xavier, entra no dedo de Policrates." Mas de novo a ideia bate as asas, sem querer ouvi-lo. Dias depois... 
                Z - Adivinho o resto: uma série de encontros e fugas do mesmo gênero.
                A - Justo. 
                Z - Mas, emfim, apanhou-o um dia.
                A - Um dia só, e foi então que me contou o caso digno de memória. Tão contente que ele estava nesse dia! Jurou-me que ia escrever, a propósito disto um conto fantástico, à maneira de Edgardo Poe,  uma página fulgurante, pontuada de mistérios, - s~]ao as suas próprias expressões; - e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o anel fugira-lhe outra vez. "Meu caro A, disse-me ele, com um sorriso fino e sarcástico; tens em mim o Policrates do caiporismo; nomeio-te meu ministro honorário e gratuito."  Dai em diante foi sempre a mesma coisa. Quando ele supunha por a mão em cima da ideia, ela batia as asas, plas, plas, plas, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho. Outro peixe a engoli e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos casos que ele me contou naquele dia, que dizer-lhe três... 
                 Z - Não posso; lá se vão os quinze minuto. 
                 A - Conto-lhe só três. Um dia, o Xavier chegou a crer que podia emfim agarrar a fugitiva, e fincá-la perpetuamente no cérebro. Abriu um jornal de oposição, e leu estupefato estas palavras: "O ministério parece ignorar que a política é, como a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e, não podendo ser bom cavaleiro, porque nunca o foi, devia ao menos parecer que o é." Ah! emfim, exclamou Xavier, cá estás engastado no bucho do peixe; já me não podes fugir. Mas, em vão! a ideia fugia-lhe, sem deixar outro vestígio mais do que uma confusa reminiscência. Sombrio, desesperado, começou a andar, a andar, até que a noite caiu; passando por um teatro, entrou; muta gente, muitas luzes, muita alegria; o coração aquietou-se-lhe. Cumulo de benefícios; era uma comédia do Pires, uma comédia nova. Sentou-se  ao pé do autor, aplaudiu a obra com entusiasmo, com sincero amor de artista e de irmão. No segundo ato, cena VIII, estremeceu. "D. Eugênia, diz o galã a uma senhora, o cavalo pode ser comparado à vida, que é também um cavalo xucro ou manhoso; quem não for bom cavaleiro, deve cuidar de parecer que o é." O autor com olhar tímido, espiava no rosto do Xavier o efeito daquela reflexão, enquanto o Xavier repetia a mesma súplica das outras vezes: - "Meu querido anel..."
                 Z - Et nunc et semper... Venha o último encontro, que são horas. 
                 A - O último foi primeiro. Já disse que o Xavier transmitira a ideia a um amigo. Uma semana depois da comédia cai o amigo doente, com tal gravidade que em quatro dias estava à morte. O Xavier corre vê-lo; e o infeliz ainda o pode conhecer, estender-lhe a mão fria e trêmula, cravar-lhe um longo olhar baço da última hora, e, com a voz sumida, eco do sepulcro, soluçar-lhe: " Cá vou, meu caro Xavier, o cavalo xucro ou manhoso da vida deitou-me ao chão; se fui mau cavaleiro, não sei; mas forcei por parecê-lo bom." Não se ria; ele contou-me isto com lágrimas. Contou-me também que a ideia ainda esvoaçou alguns minutos sobre o cadáver, faiscando as belas asas de cristal, que ele cria ser diamante; depois  estalou um risinho de escarno, ingrato e parricida, e fugiu como das outras vezes, metendo-se no cérebro de alguns sujeitos, amigos da casa, que ali estavam, transidos de dor, e recolheram com saudade esse pio legado do defunto. Adeus. 
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BREVE BIOGRAFIA 
Joaquim Maria Machado de Assis, poeta e romancista brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 21 de Junho de 1839 e faleceu em 25 de Setembro de 1908. Membro da Academia Brasileira de Letras, foi até morrer o seu presidente sempre reeleito. Escreveu: Crisalidas, 1864; Falenas, 1870; Americanas, 1875, três volumes de versos que o consagraram como poeta. Da sua vasta obra de romancista temos: Don Casmurro; Quincas Borba; Memórias póstumas de Brás Cuba, 1881; Memoriam de Aires; Helena; Jayá Garcia; A mão e a Luva. Para o teatro escreveu: O caminho d posta; Uma Ode de Anacreonte. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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sábado, 20 de julho de 2013

HELENA de Machado de Assis


HELENA 
De Machado de Assis 
Resumo de Nicéas Romeo Zanchett 
Helena é um dos melhores livros do nosso grande escritor Machado de Assis, na sua primeira fase de feição romântica, e por ele mesmo é um livro particularmente prezado. 
De todos os do autor, é o que mais se presta a um resumo. Algo romanesco, na opinião do próprio Machado de Assis, tem força de mocidade, tem vida e muita arte de composição e de análise. 
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                     Ao morrer, deixou o conselheiro Valle, já viúvo, dois únicos parentes, um filho, Estácio, de 27 anos e engenheiro, e uma irmã solteira, D. Úrsula, de 50 e poucos anos, e que sempre vivera em sua companhia. Mas o testamento do conselheiro revelou a existência de uma outra filha, Helena, que ele reconhecia como herdeira de uma parte dos seus bens e que devia passar a viver com a família, a quem recomendava que a tratasse com desvelo e carinho. Helena estava, na ocasião, estudando num colégio de Botafogo - RJ. Tinha 17 anos. Semanas depois concluía os estudos; e D. Úrsula foi buscá-la. Não aceitava de boa mente essa incumbência, mas foi fazer o que devia. A moça, não obstante a consanguinidade agora conhecida, era de todo estranha à família. D. Úrsula, no seu íntimo,  reprovava a resolução do conselheiro; ao seu parecer bastava, como generosidade paterna, a parte do legado; era excessivo deixar-lhe também a coparticipação do afeto. Acompanhava-a nesse sentimento, e ainda com maior restrição, um velho amigo da família, o Dr. Camargo; entre as razões que o moviam, a mais forte e calada era o egoísmo de pai; tinha uma filha única, Eugênia, quase noiva de Estácio.  Estácio, por índole de coração, e por seu bom caráter, não formulou nem consentiu objeções à atitude do pai; e predispôs-se  à nova afeição fraternal, que parecia vir completar-lhe a vida doméstica. A impressão que teve de Helena foi melhor do que ele podia prever. Era uma linda moça,finamente educada e de inteligência aguda, superior à sua idade. 
                    Houve, como era natural, nos primeiros dias muito acanhamento, mas a familiaridade se fez sem demora, ainda que sem o abandono de irmãos, que se formam junto desde o berço. Em Estácio predominava sempre a surpresa do conhecimento progressivo, e a sua afeição trazia um perfume de enlevo. 
                    Helena captou também, aos poucos, a simpatia dos frequentadores da casa, salvo o Dr. Camargo, que a olhava sempre com o espírito prevenido. D.Úrsula resistia para não se deixar vencer pelas graças da sobrinha; mas teve de ceder de todo depois de uma moléstia grave em que Helena a assistiu como enfermeira dedicada, com solicitude e carinho de mãe.  O reconhecimento de D. Úrsula foi abundante e espontâneo. A primeira vez que saiu do quarto, amparando-a de um lado e do outro, Helena e Estácio  fizeram-na sentar-se em frente a uma janela da sala, que o sobrinho entreabriu para penetrar além da luz, um pouco de ar. D. Úrsula respirou longamente, como se estivesse lavando o pulmão com aquela primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficara de pé a seu lado, fê-la inclinar a fronte, e imprimiu-lhe um longo beijo, verdadeiramente maternal.  Estácio, aproximara-se; aquela manifestação encheu-o de júbilo. 
                   " Bem merecido beijo", exclamou ele. "Helena foi um anjo em todo esse tempo".
                   " Bem sei", retorquiu D. Úrsula; "foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Pode ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal mérito é só teu". 
                   Helena abraçou a convalescente. 
                   "Estácio", disse esta, "agradece a tua irmã, como eu fiz". 
                    Estácio inclinou-se para Helena, afim de lhe dar-lhe um beijo fraterno de irmão. Não o conseguiu, porque Helena, desviando-se estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda, e disse: 
                   " Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta-me o aperto de mão e o afeto de todos". 
                   Estácio apertou-lhe a mão e sentiu-a trêmula. Aquele movimento não lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bela.  
                   Fosse outro o estado do coração de Estácio, e havia de parecer-lhe exagerada e descabida, tamanha reserva no trato entre irmãos.  E notar-lhe-hia também  com estranheza o tremor da mão. Mas o enlevo prevalecia nele, e não o predispunha para uma análise do sentimento dela e dele. Na verdade, amava-se, como namorados um do outro; e a convivência ajudava o amor, sem que dessem acordo da natureza dessa atração que era idílica, mas não excedia a liberdade de dois irmãos amigos. Estácio notava, é certo, que já não era tão instante o seu amor a Eugênia, e tudo era pretexto para ele ir adiando a declaração de noivado.  Comparava Eugênia e Helena; e parecia-lhe que esta era o tipo da mulher e esposa; a outra era formosa, mas tinha a vaidade de sua beleza, amava-se sobretudo a si mesma no amor que podia inspirar a outrem. "Há cem belezas como aquela", disse ele a Helena, uma vez que esta lhe notara propositadamente a formosura da amiga. E insistia para que ele resolvesse logo o noivado. Estácio prometia, continuava a adiar, mas o seu pensamento era mais ocupado por Helena do que pela futura noiva. E surgia uma razão para preocupa-lo.
                   Surpreendera a irmã entretida na leitura de uma carta, que ela procurou esconder. Suspeitou um namoro; e a suspeita parecia confirmar-se com o procedimento da moça, que de quando em quando saia a cavalo, fazendo-se acompanhar de um escravo, em vez dele, e as vezes às escondidas dele.  Entrou a espreitá-la. E um dia fez-lhe uma alusão ao motivo secreto dos seus passeios. Estava os dois na chácara de casa. A moça não respondeu à indireta.  
                  "Helena", disse ele, "você ama".  
                  A moça estremeceu, e corou vivamente; olhou em volta de si como assustada e pousou as mãos nos ombros de Estácio. Refletiu ela no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa ocasião parecia concentrar-lhe todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente: 
                 "Muito! Muito! Muito!"  
                  Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula, pôs o dedo na boca como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava no seu rosto; Helena deu as costas ao irmão e afastou-se rapidamente. 
                  Pessoa que assistisse à cena teria concluído o verdadeiro sentimento dos dois. Mesmo sem ter ouvido esse e outros diálogos íntimos, compreendera-lhes o estado de alma o padre Melchior, velho capelão e amigo da família. Interviu diretamente para apressar o noivado de Estácio, o qual por fim se decidiu, a instâncias de Helena, solicitada pelo Dr. Camargo, pai de Eugênia. Pouco depois a família do Dr. Camargo teve de fazer uma viagem a Cantagalo, onde residia a madrinha de Eugênia, que adoecera gravemente. Eugênia era das possíveis herdeiras, e havendo outros parentes que assistiam a enferma, convinha-lhe estar o lado desta naqueles dias de crise. Era o que pensava o Dr. Camargo; a filha, porém, só iria indo também o seu noivo.  Estácio não pode levar avante a sua relutância, e partiu. Mas foi só com o corpo; a alma ficou-lhe toda em casa junto de Helena;  e é o que exprimia a efusão d'uma longa carta escrita à irmã. Leu-a o padre Melchior, quis ler também a resposta de Helena, e senhor do segredo confessado e inconfessável dos dois, confiante também no caráter de Helena, promove a sua anuência ao pedido de casamento que lhe fez então uma amigo de mocidade de Estácio, Mendonça,  recém-chegado da Europa. Só faltava a aprovação de Estácio, e com ele contava Mendonça. Mas apenas teve a notícia em Cantagalo, Estácio partiu para o Rio, e ao contrário da esperança de Mendonça, opôs ao noivado tanta displicência de maneiras e tais razões, que o amigo, contra o voto do padre Melchior, contra a declaração de Helena, entendeu retirar o seu pedido. A razão principal, antes pretexto, que opunha Estácio era a existência duma afeição oculta de Helena, e sobre a qual ele a interrogara. Na sua consciência confusa apontavam as dúvidas sobre o motivo dos pais de Helena.  E uma manhã, em que ele, por aturdir-se, saíra a caçar, aconteceu ver justamente Helena,  que saía de uma casa no caminho da Tijuca, a mesma casa desenhada por ela num quadro com que  e presenteara no dia de seu aniversário. O pagem escravo esperava-a com o cavalo a pequena distância. Estava ali, pois, a explicação dos passeios matinais de Helena. Não pode vencer o desejo de ir ele também à casa misteriosa, e uns arranhões sangrentos da mão, ao apoiar-se numa cerca de espinhos, deram-lhe ali logo o pretexto para bater à porta da casa como a pedir água para lavar-se do sangue. Abriu-lha o morador, homem de meia idade, de aspecto pobre, mas gentil, que se prontificou logo em fazer-lhe os curativos e o entreteve em palestra. 
                 O mistério crescia, com o desvanecimento da hipótese de que as visitas de Helena àquela casa  tivessem um intuito de caridade.  Nessa mesma tarde, Estácio, em retribuição a uma carícia efusiva de Helena, tomou do desenho dela e apontou-lhe a casa com um olhar, que exprimia dor, interrogação, e intimativa. A moça nada pode responder, tamanha foi a sua comoção. Recolheu-se a seu quarto, donde não saiu todo esse dia, recusando alimento.  Houve então um conselho de família, com a presença do padre Melchior, e afinal explicou-se o mistério. O morador da casa, Salvador, era  pai de Helena; o reconhecimento desta como filha, por parte do conselheiro Valle, fora um ato de piedosa afeição, na crença de que havia morrido o pai, na verdade só traído pela amante, mãe de Helena, que ao conhecer o conselheiro lhe ocultava o motivo  da ausência de Salvador. 
                   Este, apesar da afeição que tinha à filha, resignava-se a ser tido como morto, preferindo o seu sacrifício ao da felicidade de Helena. Revelara-se mais tarde à filha, e conseguiu com os seus argumentos fazer com que ela não rejeitasse  o reconhecimento testamentário e a parte da herança. Contentava-se com o sentir de longe o seu amor filial, e ter de quando em quando as suas visitas. Obtidas todas as explicações e comprovadas pelas cartas anteriores de Salvador e de Helena, ficou acordado que não mudasse a situação desta; a afeição da família não mudara, pela pessoa de  Helena, e era imprescindível evitar-se o escândalo da revelação, que prejudicava a memória do conselheiro Valle.  
                  E foi o que prevaleceu sobre o sentimento de Estácio, a quem sorria a possibilidade de realizar  o amor, de que tinha enfim a consciência. Helena, porém, não se conformava à ideia de que a pudessem julgar  uma aventureira. Se as afirmações que lhe faziam de que a estima de todas era igual e porventura ainda maior que antes, não lhe permitiam deixar a casa; não fraqueou a sua resolução de deixar-se morrer, para não afrontar a vergonha da situação. Na verdade o que lhe fazia o desespero era a necessidade de continuar a ser tida como irmã de Estácio, a quem ela amava. A morte desejada como solução veio provocada por ela. No delírio da febre, dois nomes volviam frequentemente aos lábios da enferma, o de Estácio e o de seu pai. Pouco antes de fechar para sempre, os olhos dela já volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estácio que o recebeu, olhar de amor, de saudade e de promessa. 
                  "Ânimo, meu filho!  disse a Estácio o capelão. 
                  " Perdi tudo, padre mestre!" gemeu Estácio. 


O resumo de grandes obras literárias, que tenho feito,  tem como principal objetivo despertar o interesse dos leitores para conhecer a literatura dos maiores escritores de todos os tempos. 
Nicéas Romeo Zanchett 

                


quinta-feira, 21 de abril de 2011

O ENFERMO - Machado de Assis.

                               O ENFERMO - de Machado de Assis. - 
                                 Memórias Póstumas de Brás Cubas
Virgília se desfazia toda em afagos ao velho parente. Ela ia recebê-lo à porta, falando e rindo, tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o a uma cadeira, ou à cadeira, porque lá havia a "cadeira do Viegas", obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã. Ia fechar a janela próxima, se havia alguma brisa, ou abri-la, se estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não desse um golpe de ar. 
- Então? hoje está mais fortezinho...
- Qual! Passei mal a noite; o diabo da asma não me deixa. 
E bufava o homem repousando a pouco e pouco do consaço da estrada e da subida, não do caminho porque ia sempre de sege -(charrete).  Ao lado, um pouco mais para a frente, sentava-se Virgília, numa banquinha, com as mãos  nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava à sala, sem os pulos de costume, mas discreto, meigo, sério. Viegas gostava muito dele. 
- Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla algibeira, tirava uma  caixinha de pastilhas, metia uma na boca e dava outra ao pequeno. Pastilhas antiasmáticas. O pequeno diza que eram muito boas. 
Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, Virgília compria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as pedras com a mão frouxa e tardia. Outras vezes, desciam a passear na chácara, dando-lhe ela o braço, que ele nem sempre aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma légua. Iam, sentavam-se, tornavam a ir, a falar de coisas várias, ora de um negócio de família, ora de uma bisbilhotice de sala, ora enfim de uma casa que ele meditava construir, para residência própria, casa de feitio moderno, porque a dele era das antigas, contemporânea de el-rei Dom João VI, à maneira de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de São Cristóvão, com as suas grossas colunas na frente. Parecia-lhe que o casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgília chegaria a ver o que era um velho de gosto. 
Falava, como se pode supor, lentamente e a custo, intervalo de uma arfagem incômoda para ele e para os outros.
(Memórias Póstumas de Brás Cubas,  Machado de Assis).
Pesquisa e postagem > Nicéas Romeo Zanchett 
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domingo, 10 de abril de 2011

NA VARANDA - Machado de Assis





                                    NA VARANDA - Machado de Assis 
Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. Não me atrevia a descer à chácara, e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias: 
"Sempre jutos..."
"Em segredinhos..."
"Se eles pegam de namôro..."
Tijolos que pisei e repisei naquela tarde, colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda, segundo eu ia ou vinha,  em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um gozo nôvo, que me envolvia em mil mesmo, e logo me dispensava, e me trazia arrepios, e me derramava não sei que bálsamo interior. Às vezes, dava por mim, sorrindo, um ar de riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu pecado. E as vozes repetiam-se confusas: 
"Em segredinhos..."
"Sempre jutos..."
"Se eles pegam de namoro..."
Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrário, os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício,  nem os cantos outra utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros. Pássaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estio, toda a gente viva do ar era da mesma opinião. 
Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. Antes dela ir para ocolégio, eram tudo  travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e  no último ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorqui chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançavamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muitas vezes não passavam de simples repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe  que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga. 
Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam  essas e outras confidências. A emoção era doce e nova, mas a causa dela fugia-me, sem que eu a buscasse nem supeitasse. Os silêncios dos últimos dias, que me não descobriam nada, agora os sentia como sinais de alguma coisa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infância. Também adverti que era fenômeno recente acordar com opensamento em Capitu, e escutá-la de memória, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nela, em minha casa, prestava mais atenção que dantes e, segundo era louvor ou crítica, assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora, quando éramos somente companheiros de travessuras. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês, com intervalos, é verdade, mas com exclusivismo também. 
Tudo isso me era agora apresentado pela boca de José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e de outro. Naquele instante, a eterna  Verdade não valeria mais que ele, nem a eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam , desandavam, estacavam, trêmulas e crentes de abarcar omundo.
Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira. 

De  Machado de Assis  - Em Dom Casmurro. 
Postado por Nicéas Romeo Zanchett 
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