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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

CARAMURU - Por Santa Rita Durão


CARAMURU
Por Fr. José de Santa Rita Durão 

O NOSSO POEMA NACIONAL 
No seu poema épico Caramuru, teve anta Rida Durão um bem definido propósito patriótico. Este livro é a época do descobrimento do Brasil; a história do país é objeto no poema de três longas narrativas episódicas diversas, e o teatro da ação é o Recôncavo, por assim dizer, o berço da nacionalidade que ia aqui nascer e desenvolver-se.
Foi orquestrado pelo nosso grande Maestro Carlos Gomes. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               Ia ele de Portugal para o Brasil, quando uma tremenda tempestade acomete o navio e o faz dar à costa. Muitos cadáveres são arrojados pelas ondas à praia, onde os ferozes indígenas os devoravam. Sete, apenas, escaparam com vida, vindo do navio a nado até à terra. A estes poupam os horrendos selvagens, nus, de pele avermelhada untada de resinas, com as orelhas, nariz e boca furados, de onde pendem grosseiros enfeites, e com os lábios ainda vermelhos do sangue das suas vítimas recentes. 
               Mas se os poupam e os sustentam com cuidado, é apenas tendo em vista a sua engorda, a fim de mais delicioso e farto ser o banquete que preparam. 
               Enquanto dura o seu cativeiro, um dos náufragos, acompanhando-se numa viola que as ondas tinham trazido à pria ( juntamente com armas, munições e pólvora) canta, para recrear os companheiros. É nativo de uma ilha do Atlântico e poeta; e canta a história do bom selvagem americano que escutou a palavra de um missionário e morreu com cheiro de santidade, sendo o seu corpo levado numa nuvem para a ilha do Corvo, onde foi colocado no cimo de um alto pico, transformando-se aliem estátua que ficou apontando para o Brasil, a fim de que os europeus, obedecendo ao seu gesto, se encaminhassem para o Novo Mundo e ali espalhassem a salvadora doutrina de Cristo. 
                Enquanto os cativos escutavam  estes cantores, Diogo, que entre eles se encontrava, contou-lhes o pressentimento que tinha de que brevemente a sua triste vida findaria na horrenda festa dos selvagens. E aconselhou-os a que afastassem seus pensamentos de cuidados terrenos, e, pedindo a Deus perdão de suas culpas, lhe encomendassem as almas. 
                Iam adiantados os preparativos da sinistra festa, e em breve os canibais os viriam buscar à gruta onde faziam sua morada, exceto a Diogo, que deixaram ali ficar, porque estava muito magro e doente. Ataram seis a postes e já o carrasco se aproximava de um erguendo o maço para com ele lhe esmagar a cabeça, quando se ouviu espantoso trovão que a todos amedronta, ao mesmo tempo que uma turba inimiga faz chover dardos e pedras sobre os selvagens, fazendo mortos os que queriam matar. Era Sergipe, chefe da vizinha tribo que com eles andava em guerra, que assim, de surpresa, os acometia. Logo esse chefe manda soltar os cativos, a quem toma por escravos. Porém, não há deles mais memória, e presume-se que, vagueando pelas brenhas, teriam ali encontrado a morte, servindo de alimento às feras. 
II
                O sol já estava alto quando, ao dispersar daquela turba carniceira, Diogo se viu só na gruta, ocupado por mil pensamentos desencontrados e por mil terrores. Anima-se, porém, em breve, e o seu peito vagaroso resolve não morrer sem tentar defender-se. Doente e enfraquecido, pouco podia contar com as suas forças, mas entrando na caverna que lhe servi de habitação, ali se revestiu das suas armas e elmo, e cingiu a espada e pôs a espingarda ao ombro. 
                Saindo da gruta assim armado, viu a turba dos selvagens, que davam mostra de terem sido vencidos. Vendo Diego armado, recuaram espavoridos, julgando contemplar um ente sobrenatural. De bruços aos seus pés lhe cai o chefe Gupeva, sucumbindo de pavor. Aproveitando aquela disposição, Diego, servindo-se do pouco que que aprendera da língua durante o cativeiro, fez valer o terror que inspirava e, falando mansamente, lhes explica que serve um Deus onipotente, que é o Pai de  todos, e que detesta os sacrifícios humanos e proíbe os costumes canibais. Leva consigo o chefe Gupeva ao interior da gruta, e ai, servindo-se do fuzil, acende rápido a candeia, o que mai assombra e assusta os selvagens. Mostra-lhes as armas, as roupas, e uma imagem da Virgem que impressiona vivamente  Gupeva. 
                 Sai dali o chefe cheio de respeito e fala aos seus, repetindo-lhes as palavras do branco e ordenando que o venerem e o temam, porque é seu amigo e poderoso.  
                 No dia seguinte organiza-se uma grande caçada, e então Diego, pegando na espingarda, atira a uma ave que logo derruba. O efeito deste tiro é espantoso. Os selvagens caem por terra e estorcem-se de pavor, gritando: Caramuru! que significa filho do trovão. E, dai por diante, esta palavra fica sendo para eles o nome do herói.
                 Levam-no então para a sua taba ou aldeia, onde lhe fazem as honras da hospitalidade. Pouco depois tem Caramuru a oportunidade de ver a filha de um rei vizinho, que é branca, rosada e linda como um anjo. Logo lhe oferece a mão de esposo, apenas exigindo que ela se convertesse ao catolicismo.
                  A bela Paraguaçu passa a servir de interprete para as conversas entre Caramuru e Gupeva; e este conta ao branco a sua fé na imortalidade com tão acertadas e claras razões que deixam o herói admirado. 
                  Pelo meio da conversa vai sempre Diego falando do Deus verdadeiro e da sua santa doutrina e Gupeva conta-lhe como a tradição na sua gente tem observado as crenças antigas de um dilúvio universal de que só espantou Tamandaré e sua esposa, de quem descende toda a raça humana espalhada pelo mundo. 
                  Diz-lhe as leis do seu povo, como se pratica a lei de Talião e como os anhangás (demônios) tentam os homens  e os levam aos crimes; como existe um inferno horrendo para os maus em vales profundíssimos escondidos entre as montanhas que dividem o Brasil do Peru;  e que existe um paraíso além dessas montanhas, para os heróis e os justos. 
                  Termina Gupeva o seu discurso contando os milagres e pregões de São Thomé aos selvagens; sabem estes que ele era um enviado  de Deus que queria ensinar-lhes o caminho do céu, mas esqueceram a sua doutrina. 
                  Grande alarido interrompe o chefe nesta altura. É uma forte tribo inimiga que avança em pé de guerra. Recomenda Diego calma e prudência, e, disparando a espingarda, semeia terror na turba inimiga. 
IV
                   O invasor era um chefe errante, terror do sertão, chamado Jararaca que, tendo um dia avistado a linda Paraguaçu, desejava casar com ela. Pedira ao pai e este acedera ao eu pedido, mas Paraguaçu não dera seu consentimento. Despeitado e irritado com esta recusa, Jararaca jurava vingar-se. 
                   Para esse fim reuniu numerosos tribos de ferozes selvagens, de aspecto tão medonho que só vê-los causava espanto. Numerosos como as areias do mar,  ai vinham eles agora, com seus chefes desafiando com gritos que mais pareciam demônios. 
                  Disse-lhes Jararaca que Gupeva fizera aliança com o filho do trovão, e que diante dele tremera de medo e se humilhara, mas que ele, Jararaca, não tinha tais pavores, pois os raios do céu também matam alguns homens, mas não todos; e, declarando não ter medo algum de Caramuru, dizia que avançaria para ele sem tremer. 
                 Começa a batalha inaudita; com os invasores vinha um exército de mulheres guerreiras temíveis, comandadas pela afamada Guarapiranga, chamada de grã baleia; mas do lado de Gupeva um outro batalhão feminino, não menos terrível, era comandado por Paraguassú. 
                Já o sangue corre, já muitos guerreiros caem para não mais se levantarem, quando um aliado de Jararaca, lança sobre Diego um tigre amestrado para a guerra, que consigo trazia.
Uma detonação retumba nos ares; a fera cai; Diego, precipitando-se, corta-lhe a cabeça. O terror domina as ondas inimigas, que se rendem ou fogem. 
                Paraguassú faz maravilhas ao lado de Diego, valendo eles dois por todo um exército, tal é o seu valor e os fitos estupendos que praticam; porém a donzela arrojada, afastando-se de caramuru no ardor da peleja, é ferida e cai em poder dos inimigos. 
                De novo se acende a luta atroz em torno daquele troféu precioso.  Diego consegue por fim libertar a moça, e, tocando num tambor e disparando mais uma vez a espingarda, põe o inimigo em debandada e decide a sorte da batalha. Paraguassú, que desmaiara, volta a si e recompensa com um sorriso o seu libertador. 
                Mas Diego aponta a espingarda com mão e vista certa; espera a ocasião; o tiro parte; a bala atravessa a cabeça de Jararaca, que tomba como árvore derrubada. 
                Com a morte de Jararaca e o desbarato das canoas, a vitória é completa e definitiva. Todos os chefes inimigos se juntam e vem render-se a Diego, que por todos é eleito chefe supremo do sertão. 
                Tenta ele antão abolir o horrendo costume de banquete de carne humana; porém o costume e a gula são tamanhos que em tudo lhe obedecem seus vassalos, menos nisto. 
VI 
                 Vencida com espantosa vitória a grande batalha, de todos os pontos do sertão vieram chefes prestar homenagem a Caramuru e oferecer-lhe presentes.  Todos lhe traziam as filhas para ele tomar como esposa; e estas vendo Diego ficavam com ciúmes de Paraguassú, de quem desejavam a morte. A bela preferida, aborrecida de tantas e tantas contrariedades, estava ansiosa de partir com o seu noivo para a Europa. 
                Diego, preocupado com v´rios pensamentos, afastou-se um dia da taba e pelas margens do formoso e vasto rio de São Francisco se foi alongando. Procurando refúgio contra os raios do sol ardente, penetrou numa gruta ou lapa, onde ficou assombrado. Era uma vastíssima caverna cavada e trabalhada pela natureza e tinha a forma e a grandeza de um enorme templo cristão. Ali caiu Diego de joelhos, adorando o Senhor, pois em tal milagre reconheceu o sinal de que Deus não desamparava os selvagens e já se preparava para os juntar ao seu rebanho de fieis.
                Prosseguindo na sua viagem, teve Diego ocasião de salvar uns náufragos espanhóis que, vindos do Peru pelo largo do rio, demandavam novas terras. E, pouco depois, avistou uma nau francesa.  Nessa nau embarcou, levando consigo Paraguassú, com destino à Europa, pois estava cansado de tamanhas aventuras e desejoso de levar aos seus as novas terras que descobrira e dos povos que dominara. 
                Ao largar a nau, depois das despedidas, as moças que queriam casar com Diego lançaram-se no mar e a nado seguiam, chorando, o navio. Uma delas, chamada Moema, agarrada ao leme, rompia em queixas que cortavam o coração; e por fim fundou-se nas ondas, e as outras, a nado, desconsoladas retrocederam à praia.  (Este episódio de Moema é um dos mais belos de todo este maravilhoso poema épico).
                Navegava o navio com bonança, e o comandante francês,sentado á popa, ia perguntando muitas coisas a Diego, que respondendo-lhe, narrava sua descoberta do Brasil e a divisão do mundo que o Papa fizera entre portugueses e espanhóis. E descreveu-lhe as diferentes províncias brasileiras, cada qual com a sua formosura e riqueza espantosas. Narra também a chegada ao Brasil do grande Cabral, que logo na nova terra descoberta fez erguer o sagrado lenho e celebrar um ofício divino e que os nativo, ainda que não compreendendo a sua significação, assistiram com grande respeito. 
                Conta depois a história das suas espantosas aventuras e de como assim descobrira a Bahia e novas terras e povos. 
VII
                Foi no outono que chegou à França o navio que levava Diego e a gentil Paraguassú. Reinava então Henrique II, casado com Catarina de Médicis. 
                Paraguassú, ao ver os palácios, as torres, a casaria, os vestuários e todos os luxos e movimento da cidade importante e civilização que era Paris, ficou estupefata de admiração e só nos olhos se lhe conhecia vida, pois parecia ter perdido o entendimento. 
                Logo, em Paris, se espalhou a fama de tal chegada. Diziam que Diego era o rei do Brasil e Paraguassú a rainha, e de todos os pontos da cidade acudia o povo para vê-los. 
               Foram recebidos pelos reis no meio da sua suntuosa corte e ali Diego contou as suas aventuras e disse-lhe que Paraguassú, que o acompanhava,  era princesa ilustre da sua tribo e que desejava abraçar a fé de Cristo. 
                Catarina de Médicis ofereceu-se para ser madrinha de batismo, e três dias depois,com grande suntuosidade,  Paraguassú banhou-se na água benta de um dos maiores templos de Paris, recebendo de sua augusta madrinha o nome de Catarina Alves. Com esse nome ficou sendo chamada aquela a quem a Bahia reconhece como sua fundadora. 
                Seguiu-se à importante cerimônia do batismo um grande banquete no paço do rei; e depois os reis determinaram receber o casal em audiência privada. 
                Nessa ocasião Henrique II manifestou a Caramuru o seu desejo de o ouvir sobre o que sabia sobre o Brasil. Obedecendo, Diego começa fazendo uma exposição da geografia do Brasil e dos hábitos e costumes das raças humanas que lá vivem. Descreve as províncias imensas, os enormes e majestosos rios, as florestas riquíssimas; e conta os usos estranhos, as tradições, a vida dos povos selvagens.  Passa em seguida a narrar quais os vegetais que lá abundam, as flores mimosas ou magníficas, os frutos abundantes e deliciosos, as preciosas madeiras seculares, os animais estranhos e variados da terra, do mar e dos rios , as aves multicolores, os inúmeros mariscos e as grandes baleias. 
                  Havia três anos que Diego chegara à França com o sentido de encontrar nesta viagem qualquer maneira de poder reformar os bárbaros costumes dos selvagens. lembrando-se sempre daquela pobre gente, meditava no regresso, a fim de prosseguir na sua vontade de salvar os selvagens da sua triste condição. 
                   Foi então que o rei Henrique lhe ofereceu auxílio, forças, apoio e recompensa se ele aceitasse ir ao Brasil por conta da França. Diogo agradeceu, mas recusou, pois antes de tudo era português e a Portugal pertenciam as terras brasileiras que descobrira. Admira Du-Plessis, o capitão do navio que o trouxera, a sua nobre atitude, e associa-se à sua nova empreitada. Parte a nau levando a seu bordo Diego e Paraguassú. Não longe iam já do Equador quando Paraguassú, que orava, caiu num êxtase, não sabendo os que a rodeavam se era desmaiada ou morta, e assim esteve muitas horas transfigurada. 
                   Voltado a si, narra a todos a estranha visão que tivera. Vira o futuro; a Bahia transformada numa grande e vistosa cidade; depois a invasão dos franceses e as horríveis guerras que se lhe seguiriam, distinguindo-se nelas vários heróis portugueses: Pedro Lopes de Souza, Luiz de Mello e Silva, Cristóvão Jacques, Mendo de Sá, Estácio de Sá, e outros, até que os invasores franceses foram expulsos e abatidos, e a voz do Evangelho domina na branda paz, espraiando-se pelas almas escuras que ilumina. Esta paz bendita durou setenta anos. Porém, eis que chega agora novo bando de invasores sequiosos das riquezas do Brasil. desta vez são os holandeses. Novas batalhas e novos heróis surgem, tais como o destemido Furtado de Mendonça, Menezes e outros. 
                  E estando Paraguassú neste ponto da sua narrativa, que todos escutam com assombro, de súbito se levanta medonha tempestade que a interrompe, correndo os marinheiros e Diogo às manobras. 
IX
                  Serenada a tempestade e branda a noite, todos se juntaram novamente, ardendo de curiosidade, em torno de Paraguassú, pedindo-lhe que continuasse a narrativa da sua visão. 
                  É aqui que ela conta a grande guerra com os holandeses, que durou quinze anos com alternativas de vitórias e derrotas, renascendo constantemente o valor português,  ao qual se unia o invencível valor dos povos brasileiros, de Mathias de Albuquerque, João Fernandes Vieira, e os dois heróis imortais Camarão e Henrique Dias. Termina por fim a tremenda luta pelo desbarato completo dos holandeses, que, desanimados, desistem da tentativa temerária e deixam o Brasil na paz e liberdade bem merecidas. 
                  Viu Paraguassú no seu sonho muitas coisas notáveis; viu no Brasil prósperas províncias e cidades soberbas nascer e crescer; e famosos vice-reis e prelados ilustres. 
                  Neste ponto se cala a bela Paraguassú e em novo êxtase a arrebata nova visão. Assim a deixam, esperando em breve ouvir a narrativa do sonho que a vontade celeste lhe envia. 
X
                   Terminando o seu delírio santo, conta Paraguassú o que em sonhos viu. Teve a visão divina da Virgem Mãe de Deus com seu filho celeste nos braços; e Nossa Senhora falando-lhe, disse que a tornaria a ver a terra brasileira e que a veria próspera e feliz, mas que fizesse restituir a sua santa imagem roubada e a entregasse ao culto. 
                  Todos comentavam esta visão sem a entenderem, quando, estando já à vista a terra brasileira, uma vela se aproximou do navio; dentro da embarcação vinham dois espanhóis  Gonçalez e Garcez, dois dos que Diogo salvara do naufrágio no rio, havia bastante tempo. Logo se abraçaram comovidos, e Garcez contou como de Portugal, onde tinha chegado a noticia mandada por Caramuru da sua descoberta da Bahia, haviam enviado uma nau com Pereira Coutinho destinada a fazer a conquista da Bahia. Porém os selvagens, que a principio o receberam muito bem e aceitaram suas leis e ensino de que logo no país todo se sentiu a benéfica influência, em breve, por discórdias e intrigas se tornaram inimigos. De uma vez em que Pereira Coutinho, no seu navio abordava à praia no meio de denso nevoeiro, a embarcação bateu numa rocha, onde se desfez, e então, conforme de costume, os selvagens  atacaram à gente branca, chacinando-a e devorando-a em grande parte, sendo uma das vítimas o grande Coutinho, o celebrado herói do Malabar!
                   Animou Diego com palavras de  conforto o bom Garcez, que chorava. 
                   Entretanto a nau entrava no recôncavo da Bahia e os nativos, aproximando-se e reconhecendo Caramuru e Paraguassú, recebiam-nos com mostras de grande contentamento. 
                  Du Plessis, o comandante francês, começa a fazer o seu comércio, trocando mercadorias que trazia por várias madeiras que os indígenas  iam carregando no navio, quando um selvagem, vendo numa capela interior da embarcação uma imagem da Virgem, a roubou e levou para terra. 
                  Diogo e Paraguassú, que presenciaram o roubo, entenderam então  a visão e caíram de joelhos, agradecendo a deus tal milagre, pois Paraguassú reconhecera na imagem a figura exata que em sonhos vira. 
                  Correu a abraçar e beijar e  adorar a imagem  santa; e os selvagens, admirados com fervor dos sentimentos religiosos que ela manifestava, começaram a imitá-la, pois bem sentiam que tal figura era objeto digno de veneração. Dizem assim as estrofes do poema: 
Carrega entanto o lenho desejado 
A nau de Du-Plessis, que Diego estuda, 
Que deseja em toda a terra obsequiado, 
Dando-lhe ao talho da madeira ajuda; 
Um carijó porém nisto empregado, 
Enquanto a carga em toda a nau se muda, 
Uma imagem roubou formosa e bela, 
Que a nau venera na interior capela. 
.
Observou-a Diogo na cabana
tratada dos Tupis com reverência, 
Estimando-a por coisa mais que humana, 
Que excedia dos seus a inteligência; 
Surpreendeu-se da imagem soberana
O lusitano herói; e à competência 
Com eles venerando a Mãe Divina
Chama a vê-la a piedosa Catarina. 
.
Pôs-lhe os olhos a dama; e transportada
"Esta é (disse) é esta a grã senhora
Que vi no doce sonho arrebatada. 
Mais que o sol pura, mais gentil que a aurora; 
Eis aqui! esta é a imagem venerada; 
Este era aquele roubo; entendo agora. 
Oh, minha grande sorte! Oh, imensa dita!
Isto me quis dizer a Mãe bendita!".
.
Dizendo assim com ânsia fervorosa
Prostrada abraça a imagem venerada; 
Beija-a, aperta-a, de gosto lacrimosa.
Mil saudosos ais ao céu lhe manda: 
"Aqui vos venho achar, Mãe piedosa, 
No meio (disse) desta gente infanda!
Infanda, como eu fui se o vosso lume
Não me emendara o bárbaro costume." 
.
Olha entanto suspensa a gente bruta, 
E os excessos que vê cuidando admira;
Nem concebe nas vozes que lhe escuta
Se prazer seja, se de dor suspira; 
Quanto à dama piedosa obrando vira
Qualquer imitação fazer deseja, 
E este a adora, outro abraça, e aquele a beija. 
.
O lusitano e fraco religioso
Veneraram com fé prodígio tanto, 
Lembrando-se do roubo portentoso
Com claro indício de presagio santo, 
Enquanto o brutal povo numeroso
Tudo nota em um êxtase de espanto, 
Até que a um templo em pompa veneranda
A pia multidão a imagem manda. 
.
                  Foi esta a primeira imagem de Virgem que apareceu em terra brasileira. Foi aclamada sob a invocação de Senhora da Graça, protetora da Bahia. neste grande festejo se empenhava a turba, quando se ouviu uma salva estrondosa e se avistou uma grande armada que demandava o porto. Era Thomé de Souza que chagava do reino, mandado pelo rei de Portugal como governador da Bahia. 
                  Fez então uma grande cerimônia em que  a bela Paraguassú, aparecendo coroada de plumas e com o marraque por cetro na mão, em todo o esplendor  da sua realeza, fez uma fala solene ao seu povo, anunciando-lhe paz e prosperidade sob o jugo doce e paternal da grande nação lusa, que estendia o seu império até aos confins do mundo. 
Findo o seu discurso, tirou a coroa, que entregou a Souza, assim como o marraque, insígnia de soberania, e, descendo do trono, para lá convidou o governador a subir e lhe prestou homenagem. 
                  Diogo então aclamou o rei  na pessoa do governador, e os selvagens compreenderam que Thomé de Souza era agora a quem eles deveriam obediência. 
                  A estrofe sobre este momento é a seguinte:
Logo o Caramuru na língua do estilo
das naturais falando ao chefe novo, 
Posto tudo em silêncio para ouvi-lo, 
O escudo da Bahia mostra ao povo; 
A pomba de Noé, que ao noto asilo
Com ramo de oliveira vem de novo, 
Dando a entender a paz que à crua gente 
Com a fé dispensava o rei clemente. 
.
                 Entrou a Bahia num período de prosperidade, e os missionários  espalharam a doutrina cristã, abrandando-se os costumes e aceitando aqueles povos a civilização sem serem oprimidos pelos colonos. 
                  Thomé de Souza publica um decreto real em que é mandado honrar na colônia Diego Alvares Correia, que vive feliz com sua esposa, e por todos é estimado. 
.
Pesquisa, resumo e adaptação do poema por
Nicéas Romeo Zanchett 
.

BREVE BIOGRAFIA DE SANTA RITA DURÃO 
                  O frei José de Santa Rita Durão, nasceu em Cata Preta, em 1722. Foi um religioso agostiniano brasileiro do período colonial, orador e poeta. É também considerado um dos precursores do indianismo no Brasil. Caramuru foi seu poema épico e a primeira obra narrativa escrita a ter como tema o habitante nativo do Brasil; Foi inspirada e escrita no estilo de Luiz de Camões.  Estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro até os dez anos de idade, partindo em seguida para a Europa, onde se tornara padre agostiniano. Doutorou-se em Filosofia e Teologia pela Universidade de Coimbra e, em seguida, lá ocupou uma cátedra de Teologia. 
                   Em Coimbra, durante o governo de Pombal, foi perseguido e teve de abandonar o país. Trabalhou em Roma como bibliotecário durante mais de vinte anos, até a queda de seu grande inimigo Pombal, quando então pode voltar para Portugal.  Esteve também na Espanha e na França. 
                   Com a queda de Pombal aconteceu a restauração da cultura passadista, e a sua principal atividade passou a ser a redação de Caramuru, publicado em 1781. Esta obra é seu grande poema  épico de dez cantos, que foi influenciado pelo modelo camoniano. Formado por oitavas e criadas e incluindo informação erudita sobre a flora e fauna  brasileiras, como também sobre os índios e sua cultura. Conta-se, entretanto, que sua obra seria muito maior, mas como a reação da crítica e do público foi muito fria, ele teria destruído o restante da obra poética. 
                    Morreu em Lisboa no dia 24 de Janeiro de 1784. 
Nicéas Romeo Zanchett




                  

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A VOZ DAS PEDRAS - Por Coelho Netto


A VOZ DAS PEDRAS 
 Por Coelho Netto 
               Áspero, todo eriçado de rochas, o solo estéril forrado de pedregulho, sem a grata folhagem de uma árvore, só com hirtas spatas de secos e amarelos agaves, o sítio lúgubre atroava com o retumbar das águas estrondosas dum rápido que espumava, refervendo em cachões, no fundo da grota donde subia uma auréola de névoa na qual o sol recurvava um iris deslumbrante. As mesmas águias impávidas fugiam, a largo voo, daquela paragem de pavor, só os morcegos e os mochos viviam em locas: uns oscilando pendurados pelas asas às arestas das pedras, outros imóveis, de olhos muito abertos, como emblemas de tristeza pousados no fundo lapidar das cavas. 
                Tal era o sítio funerário de onde, todas as tardes, subiam os brados melancólicos que assombravam os pastores e faziam uivar os rafeiros assustados. Desde que o sol  começava a pender para as serras ninguém ousava passar nas imediações daquele lugar sinistro. O mesmo gado, ao soarem Trindades, descia atropeladamente, fugindo à beira do vale, a mugir, abalar como assombrado de algo que vira. Cada qual narrava um caso e, nas cabanas, ao luzir do fogo, falava-se baixinho do encanto do vale. 
                 Tão diversas fábulas narravam os homens tímidos, que eu quis conhecer a verdade e resolvi descer afoitamente ao vale. Ofertas que fiz aos rústicos para que me acompanhassem foram todas rejeitadas, e não houve uma voz que animasse o meu desejo, todas vinham enfraquecê-lo com presságios de morte: 
                - Que ide buscar, senhor? Não vos queirais medir com o que é do inferno. Se fiais nas armas é porque não conheceis o inimigo - não há ferro que o penetre, nem bala que lhe faça mossa. 
                 Deixei as palavras medrosas e, atendendo à minha resolução, parti. 
                 Seguindo a trilha sinuosa que abre, através da floresta, uma passagem sombria, ouvindo os pios das aves recolhidas, gozando o aroma das flores entreabertas, antes mesmo de chegar à rampa alcantilada ouvi a voz do encanto a gemer no silêncio da tarde lívida. 
                 Detive-me irresoluto, mas violentando a coragem, prossegui e, deixando as últimas árvores, dei com a grota, tão negra que a noite parecia nela condensar-se, subindo e espalhando-se nos ares como fumo espesso. 
                 Uma voz proferia; prestei o ouvido ao clamor e logo distingui um nome de mulher. Abeirando-me da rampa abrupta, inclinando-me agarrado aos pendidos ramos, pude ver, pude ouvir. 
                 Parando no fundo da grota um moço bradava. Era um rapaz de herdade que eu sempre tivera por idiota ao vê-lo, no campo, falando às árvores e aos passarinhos, beijando as flores ou, de pé, à beira do riacho, chorando sobre as águas. Perdera a noiva, dissera-me, e vivia a recordá-la percorrendo os seus lugares preferidos, acariciando as flores e as árvores que ela mais quisera e pedindo aos pássaros que andam nos ares, que levassem as suas saudades ao Paraíso.
                 Era ele... Pobre duende amoroso! Reconhecendo-o logo resolvi descer e lá fui, resvalando pela ribanceira, até o fundo da grota pedregosa. 
                 O moço bradava e o eco respondia. Cheguei-me ao triste e, tirando-o do enlevo em que jazia, interroguei-o:
                 - Que fazeis? 
                 - Ouço-lhe a voz. Todas as tardes com o silêncio, desço ao vale, reclamo da morte e o espírito da minha amada, e interrogo-o para convencer-me de que ainda me não esqueceu e também para não deixar que se desvaneça a lembrança do que juramos. Ela era ainda uma louquinha quando morreu - sorria a todos... e lá em cima há tantos jovens formosos que se foram da terra no melhor dos anos... Quereis ouvi-la? 
                  E o mísero bradou o doce nome e logo o vale atroou se-turno. 
                  - Mas são as pedras que vos respondem, disse eu; é o eco que torna aos vossos ouvidos em som, que é o que há de material na palavra, o espírito, que é a ideia, desaparece no ar. Não é a vossa amada que vos responde,são as rochas do vale que refletem os vossos brados. Se quereis convencer-vos, deixai-me chamar a vossa amada. 
                  E bradei; e as pedras retumbaram. O moço fitou-me pálido e assombrado. de novo bradei, de de novo o eco repetiu o meu brado. Então? fitei nele os olhos - o mísero chorava e por entre soluços disse-me: 
                  - Vieste matar a ilusão da minha alma. Eu vivia por ela, chorando e bendizendo a sua morte porque, se sinto a falta do seu rosto formoso não a vejo sorris aos outros como sorria, e agora que o túmulo a conserva presa, certo de que era só minha, ainda a encontro volúvel como era em vida, respondendo a todos como a todos respondia. Ai! de mim, ai! de mim! 
                 - Mas são as pedras que respondem. 
                 - As pedras... e seria também de pedra o seu coração para que a todos respondesse? A quantas jurou ela amor? a quantos! nem a morte corrigiu. Ela aqui jaz enterrada e do fundo da cova responde com a mesma facilidade com que atendia ao apelo dos moços que iam encontrá-la, sorrindo, junto à sebe florida do seu jardim. Não são as pedras que respondem, é o seu próprio coração que fala. Ela foi sempre volúvel! Ela foi sempre volúvel!...
                E o mísero rompeu a soluçar tão alto que as pedras, talvez com pena, soluçaram com ele. 
                Oh! a voz da mulher ingrata é como a dos vales côncavos. Que há nos vales vazios?  A bruma efêmera que se desfaz igual às juras dos corações volúveis. 
                Escondei-vos, namorados, e mandai que outro invoque o amor da vossa amada, mas fugi em tempo para não terdes o desengano. Ai! de mim...
                E eis como eu descobri o encanto e desfiz o assombro do vale triste... 
                Hoje há um homem que foge ao lugar sinistro; é o louco enamorado que lá não volta, porque, como se tornou o caso conhecido, o rapazio do lugarejo ajunta-se no vale e brada pela morta infiel e a todos as pedras respondem... O mísero, de longe, ouvindo o clamor e... 
                Quantos corações são feitos daquelas pedras...

BREVE BIOGRAFIA 
Henrique Coelho Netto, escritor e romancista brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão, em 1864. Pertenceu a Academia Brasileira de letras. A sua obra é muito extensa, compreende mais de sessenta trabalhos, entre romances, novelas, contos e obras de teatro. Foi professor do Ginásio do Rio de Janeiro. Escreveu: Rapsódias, contos; A capital Federal, romance; Praia, novela; Baladilhas, contos; Inverno em Flor, romance; O Morto, romance; A descoberta da Índia, narrativa histórica, etc. Morreu no Rio de Janeiro em 28 de novembro de 1934. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O ANEL DE POLICRATES - Por Machado de Assis


O ANEL DE POLICRATES 
Por Machado de Assis
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                 A - Lá vai o Xavier. 
                 Z - Conhece o Xavier? 
                 A - Ha que anos? Era um nababo, rico, podre de rico, mas pródigo. ..
                 Z - Que rico? que pródigo? 
                 A - Rico e pródigo, digo-lhe eu. Bebia pérolas diluídas em néctar. Comia língua de rouxinol. Nunca usou papel mata-borrão, por achá-lo vulgar e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita de pó de diamante. E mulheres!  Nem toda a pompa de Salomão pode dar ideia do que era Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha grega, a tez romana, a exuberância turca, todas as perfeições de uma raça, todas as  prendas de um clima, tudo era admitido no harém do Xavier. Um dia enamorou-se loucamente por uma senhora de alto coturno, e enviou-lhe de mimo três estrelas do Cruzeiro, que então contava sete, e não pense que o portador foi um dos arcanjos de Milton, que o Xavier chamou na ocasião em que ele cortava o azul para levar a admiração dos homens ao seu velho pai inglês. Era assim o Xavier.  Capeava os cigarros com um papel  de cristal, obra finíssima, e, para acendê-los, trazia consigo uma caixinha d raios de sol. As colchas da cama eram nuvens purpúreas, e assim também a esteira que forrava  o sofá de repouso, a poltrona da secretária e a rede. Sabe quem lhe fazia o café de manhã? A Aurora, com aqueles mesmos dedos cor de rosa, que Homero lhe pôs. Pobre Xavier! Tudo oque o capricho e a riqueza podem dar, o raro, o esquisito, o maravilhoso, o indescritível, o inimaginável, tudo teve e devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom coração. Ah! fortuna, fortuna! Onde estão agora as pérolas, os diamantes, as estrelas, as nuvens purpúreas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por água abaixo; o néctar virou zurrapa, os coxins são a pedra dura da rua, não manda estrelas às senhoras, nem tem arcanjos às suas ordens... 
                 Z - Você está enganado. O Xavier? Esse Xavier há de ser outro. O Xavier nababo! Mas o Xavier que ali vai nunca teve mais de duzentos mil réis mensais; é um homem poupado, sóbrio, deita-se com as galinhas, acorda  com os galos, e não escreve cartas a namoradas, porque não as tem. Se alguma expede aos amigos é pelo correio. Não é mendigo, nunca foi nababo. 
                 A - Creio; esse é o Xavier exterior. Mas nem só de pão vive o homem. Você fala de marta, eu falo-lhe de Maria; falo do Xavier especulativo... 
                 Z - Ah! - Mas ainda assim, não acho explicação; não me consta nada dele. Que livro, que poema, que quadro... 
                 A - desde quando o conhece?  
                 Z - Ha uns quinze anos.
                 A - Upa! Conheço-o ha muito mais tempo, desde que  ele estreou na rua do Ouvidor, em pleno marquês do Paraná. Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as coisas possíveis,  e até contrarias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma história, um libelo político, uma viagem à Europa, outra ao sertão de Minas, outra á lua, em certo balão que inventara, uma candidatura política, e arqueologia, e filosofia, e teatro, etc., etc., etc. Era um saco de espantos.  Quem conversava com ele senti vertigens. Imagine uma cachoeira de ideias e imagens, qual mais original, qual mais bela, às vezes extravagante, às vezes sublime. Note que ele tinha a convicção dos seus mesmos inventos.  Um dia, por exemplo, acordou com o plano de arrasar o morro do castelo, a troco das riquezas que  os jesuítas ali deixaram, segundo o povo crê. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objetos, deu-me dois tocheiros de ouro...
                 Z - Realmente... 
                 A - Ah! impagável. Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do cônego Benigno, e resolveu ir  logo ao sertão da Bahia, procurar a cidade misteriosa. Expôs-me o plano, descreveu-me a arquitetura provável da cidade, os templos, os palácios, gênero etrusco, os rito, os vasos, as roupas, os costumes...   
                 Z - Era então doido? 
                 A - Originalzão apenas? Odeio os carneiros de Panurgio, dizia ele, citando Rabelais: Comme vous sacavez estre du mouton le naturel, tousjours suivre le premier, quelque part qu'il aille. Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes de comer um mau bife em mesa separada. 
                 Z - Entretanto gostava da sociedade.
                 A - Gostava da sociedade, mas não amava os sócios.  Um amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que lhe respondeu? Respondeu com um apólogo, em que cada sócio figurava ser uma cuia de água, e a sociedade uma banheira. - Ora, eu não posso lavar-me em cuias de água, foi a sua conclusão. 
                 Z - Nada modesto. Que lhe disse o Pires? 
                 A - O Pires achou o apólogo tão bonito que o meteu numa comédia, de aí a tempos. Engraçado é que o Xavier ouviu o apólogo no teatro, e aplaudiu-o muito, com entusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a voz do sangue... Isto leva-me à explicação da atual miséria do Xavier.
                 Z - É verdade, não sei como se possa explicar que um nababo... 
                 A - Explica-se facilmente. Ele espalhava ideias à direita e à esquerda, como o céu chove, por uma necessidade física, e ainda por duas razões. A primeira é que  era impaciente, não sofria a gestação indispensável à obra escrita. A segunda é que varria com os olhos uma linha tão vasta de coisas, que mal poderia fixar-se em qualquer delas. Se não tivesse o verbo fluente, morreria de congestão mental; a palavra era o derivativo. As páginas que então falava, os capítulos que lhe borbotavam da boca, só precisavam de uma arte de os imprimir no ar, e depois no papel, para serem páginas e capítulos excelentes, alguns admiráveis. Nem tudo era límpido; mas a porção límpida superava a porção turva, como a vigília de Homero paga os seus cochilos.  Espalhava tudo, ao acaso,às mãos cheias, sem ver onde as sementes iam cair; algumas pegavam logo...
                 Z - Como a das cuias.
                 A - Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paixão das coisas belas, e, uma vez que a árvore fosse pomposa e verde, não lhe perguntava nunca pela semente sua mãe. Viveu assim longos anos, despendendo à toa, sem cálculo, sem fruto, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro pródigo. Com tal regime, que era a ausência  de regime, não admira que fosse pobre e miserável. Meu amigo, a imaginação e o espírito tem limites; a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conheço inesgotável debaixo do sol.  O Xavier não só perdeu as ideias que tinha, mas até exauriu a faculdade de criar; ficou oque sabemos. Que moeda rara se lhe hoje nas mãos? que sestércio de Horácio? que drama de Péricles? Nada. Gasta o seu lugar-comum, rafado das mãos dos outros, come à mesa redonda, fez-se trivial, chocho...
                 Z - Cuia, emfim. 
                 A - Justamente: cuia. 
                 Z - Pois muito me conta. Não sabia nada disso. fico inteirado; adeus. 
                 A - Vai a negócio? 
                 Z - Vou a um negócio. 
                 A - Dá-me dez minutos? 
                 Z  - Dou-lhe quinze. 
                 A - Quero referir-lhe a passagem mais interessante da  vida de Xavier. Aceite o meu abraço, e vamos andando. Vai para a praça? Vamos juntos. Um caso interessantíssimo. Foi ali por 1869 ou 70, não me recordo; ele mesmo é que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o cérebro gasto, chupado, estéril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora, - "uma bonita rosa"; falava do luar saudoso, do sacerdócio da imprensa, dos jantares opíparos  sem acrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. Começara a ficar hipocondríaco; e, um dia, estando à janela, triste, desabusado das coisas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavalo. De repente, o cavalo corcoveou, e o taful veio quase ao chão; mas sustentou-se,   e meteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue frio, a arte do cavaleiro.  Então, o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro não tivesse ânimo nenhum; não quis cair diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavalo. E dai veio uma ideia;comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e acrescentou sentenciosamente: "Quem não for cavaleiro, que o pareça." Realmente, não era uma ideia extraordinária; mas a penúria do Xavier tocara a tal extremo, que esse cristal pareceu-lhe um diamante. Ele repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de vários modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a definição, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.; e tão alegre, tão alegre como a casa de pobre em dia de peru. De noite, sonhou que efetivamente montava um cavalo manhoso, que este pinoteava com ele e o sacudia a um brejo. Acordou triste; a manhã, que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; meteu-se a ler e a cismar. Então lembrou-se... Conhece o caso do anel de Policrates? 
                 Z - Francamente, não. 
                 A - Nem eu; mas aqui vai oque me disse Xavier. Policrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que começou a recear alguma viravolta da Fortuna, e, para aplacá-la antecipadamente, determinou fazer um grane sacrifício; deitar ao mar o anel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna estava tão apostada de cumulá-lo de obséquios, que o anel foi engulido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou à posse do anel. Não afirmo nada a respeito desta anedota; foi ele quem me contou, citando Plínio, citando... 
                 Z - Não ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, não a um cavalo, mas... 
                 A - Nada disso. Não é capaz de adivinhar o plano estrambólico do pobre diabo. Experimentemos a fortuna, disse ele; vejamos se a minha ideia, lançada ao mar, pode tornar ao meu poder, como o anel de Policrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo será tal, que nunca mais lhe ponha a mão. 
                 Z - Ora essa!
                 A - Não é estrambótico? Policrates experimentara a felicidade; o Xavier quis tentar o caiporismo; intenções diversas, ação idêntica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assunto, e acabou dizendo oque era a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e quem não for cavaleiro que o pareça. Dita assim, esta frase era talvez fria; por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos anos, o malogro dos esforços  ou antes, os efeitos da imprevidência, e quando o peixe ficou de boca aberta, digo, quando a comoção do amigo chegou ao cume, foi que lhe atirou o anel, e fugiu a meter-se em casa. Isto que lhe conto é natural, crê-se, não é impossível; mas agora começa a juntar-se à realidade uma alta dose de imaginação. Seja o que for, repito oque ele me disse. Cerca de três semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no Leão de Ouro ou no Globo, não me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma frase sua, talvez com uma troca de um adjetivo. " Meu pobre anel, disse-lhe ele, eis-te emfim no peixe de Policrates." Mas a ideia bateu as asas e voou, sem que ele pudesse guardá-la na memória. Resignou-se.  Dias depois, foi convidado a um baile; era um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente distinção nobiliária. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o sorvete e o chá ouviu um grupo de pessoas que louvava a carreira do barão, a sua vida próspera, rígida, modelo, ouviu compara o barão a um cavaleiro emérito. Pasmo dos ouvintes, porque o barão não montava a cavalo. Mas o panegirista explicou que a vida não é mais do que um cavalo xucro ou manhoso, sobre o qual ou se há de ser cavaleiro ou parecê-lo, e o barão era- excelente. " - Entra, meu querido anel, disse Xavier, entra no dedo de Policrates." Mas de novo a ideia bate as asas, sem querer ouvi-lo. Dias depois... 
                Z - Adivinho o resto: uma série de encontros e fugas do mesmo gênero.
                A - Justo. 
                Z - Mas, emfim, apanhou-o um dia.
                A - Um dia só, e foi então que me contou o caso digno de memória. Tão contente que ele estava nesse dia! Jurou-me que ia escrever, a propósito disto um conto fantástico, à maneira de Edgardo Poe,  uma página fulgurante, pontuada de mistérios, - s~]ao as suas próprias expressões; - e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o anel fugira-lhe outra vez. "Meu caro A, disse-me ele, com um sorriso fino e sarcástico; tens em mim o Policrates do caiporismo; nomeio-te meu ministro honorário e gratuito."  Dai em diante foi sempre a mesma coisa. Quando ele supunha por a mão em cima da ideia, ela batia as asas, plas, plas, plas, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho. Outro peixe a engoli e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos casos que ele me contou naquele dia, que dizer-lhe três... 
                 Z - Não posso; lá se vão os quinze minuto. 
                 A - Conto-lhe só três. Um dia, o Xavier chegou a crer que podia emfim agarrar a fugitiva, e fincá-la perpetuamente no cérebro. Abriu um jornal de oposição, e leu estupefato estas palavras: "O ministério parece ignorar que a política é, como a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e, não podendo ser bom cavaleiro, porque nunca o foi, devia ao menos parecer que o é." Ah! emfim, exclamou Xavier, cá estás engastado no bucho do peixe; já me não podes fugir. Mas, em vão! a ideia fugia-lhe, sem deixar outro vestígio mais do que uma confusa reminiscência. Sombrio, desesperado, começou a andar, a andar, até que a noite caiu; passando por um teatro, entrou; muta gente, muitas luzes, muita alegria; o coração aquietou-se-lhe. Cumulo de benefícios; era uma comédia do Pires, uma comédia nova. Sentou-se  ao pé do autor, aplaudiu a obra com entusiasmo, com sincero amor de artista e de irmão. No segundo ato, cena VIII, estremeceu. "D. Eugênia, diz o galã a uma senhora, o cavalo pode ser comparado à vida, que é também um cavalo xucro ou manhoso; quem não for bom cavaleiro, deve cuidar de parecer que o é." O autor com olhar tímido, espiava no rosto do Xavier o efeito daquela reflexão, enquanto o Xavier repetia a mesma súplica das outras vezes: - "Meu querido anel..."
                 Z - Et nunc et semper... Venha o último encontro, que são horas. 
                 A - O último foi primeiro. Já disse que o Xavier transmitira a ideia a um amigo. Uma semana depois da comédia cai o amigo doente, com tal gravidade que em quatro dias estava à morte. O Xavier corre vê-lo; e o infeliz ainda o pode conhecer, estender-lhe a mão fria e trêmula, cravar-lhe um longo olhar baço da última hora, e, com a voz sumida, eco do sepulcro, soluçar-lhe: " Cá vou, meu caro Xavier, o cavalo xucro ou manhoso da vida deitou-me ao chão; se fui mau cavaleiro, não sei; mas forcei por parecê-lo bom." Não se ria; ele contou-me isto com lágrimas. Contou-me também que a ideia ainda esvoaçou alguns minutos sobre o cadáver, faiscando as belas asas de cristal, que ele cria ser diamante; depois  estalou um risinho de escarno, ingrato e parricida, e fugiu como das outras vezes, metendo-se no cérebro de alguns sujeitos, amigos da casa, que ali estavam, transidos de dor, e recolheram com saudade esse pio legado do defunto. Adeus. 
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BREVE BIOGRAFIA 
Joaquim Maria Machado de Assis, poeta e romancista brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 21 de Junho de 1839 e faleceu em 25 de Setembro de 1908. Membro da Academia Brasileira de Letras, foi até morrer o seu presidente sempre reeleito. Escreveu: Crisalidas, 1864; Falenas, 1870; Americanas, 1875, três volumes de versos que o consagraram como poeta. Da sua vasta obra de romancista temos: Don Casmurro; Quincas Borba; Memórias póstumas de Brás Cuba, 1881; Memoriam de Aires; Helena; Jayá Garcia; A mão e a Luva. Para o teatro escreveu: O caminho d posta; Uma Ode de Anacreonte. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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terça-feira, 27 de agosto de 2013

O ENTERRO - Por Coelho Neto


O ENTERRO 
 Por Coelho Neto 
               Outubro. O sol, em pleno meio-dia, alargava por todo o campo uma luz fixa e cáustica. Não havia sombra, tudo resplandecia de claridade e um tédio pesado e morno de preguiça parecia ter-se apoderado das próprias coisas, prendendo-as numa imobilidade morta, de onde nem mesmo o bulir das folhas tirava o doce murmúrio, tão agradável ao ouvido de quem trabalha sob rude prancha de uma soalheira viva. 
                Nas escarpas, esterilmente nuas, cabras, berravam com melancolia, e, de momento em momento, um boi magro surgia entre as palhas secas dos milhos, lento, estafado e mole, esticava o pescoço esfolado pela canga e mugia, ficando depois com o focinho à altura das praganas louras, contemplativo e tristonho, a olhar o céu de um azul liso e forte. 
                Por baixo, num largo planalto de terra vermelha, limpa de fresco, recentemente gredada, uma charrua arrastava-se ao passo tardo de dois touros. 
                Do céu quente, sob a radiação nevrótica do sol, caía uma paz cansada, e na vasta planície nua, toda de restolho, ceifada de extremo a extremo, erguia-se apenas um casebre tosco, metido dentro de um cercado, à sombra quieta de um mangueiral ramalhoso.  
                 A par da estrada, de um amarelo sujo e peco, orlada de espinhais mirrados, corria, murmuroso e pesado, o rio sonolento, onde a figura solitária de uma lavadeira brandia panos, metida n'água até aos joelhos.  No alto de um monte, fechado de mato intenso, ardia tremulamente, fumarando espirais de cor turquesa nova, um fogo de estio, aceso espontaneamente, como outrora arderam no cume do Sinai as sarças de onde surgiu Jeová ditando a Moisés as leis do Decálogo.  
                 Para além andava-se em recua, gente miúda, pequena como as ervas rentes, diminuída consideravelmente pela distância, mourejava; ouvia-se o relincho prolongado de um carro primitivo, que vinha sulcando a terra com rodas compactas, atulhado de lenha.
                  De repente uma voz fina partiu a cantar gemedoramente e, antes de morrer de todo, um coro tomou do eco e entoou o mesmo canto, num ritornelo grave. Dois homens, a cavalo, surgiram detrás da barranca; em seguida as madrinhas, duas vacas mansas, tinindo cincerros; a boiada depois, submissa e vagarosa, turbilhonando o pó vermelho da estrada, e por fim um magote de campeiros, pampilho em punho, cantando numa toada indolente o coro pastoral. 
                  A tropa ganhou o campo. Reboaram gritos de: - EH! Ahuu! EH! lou! cá, cá, cá, ehou!
                  E o gado  solto, tresmalhou na pastagem, começando, à luz intensa e abafada, o rouco mugir dos touros, um após outro, dois a um tempo, e o galope dos bezerros, enquanto os guieiros, pulando abaixo dos lombilhos, desciam na direção do rio, juntos, ficando um só de guarda. 
                  O céu, para os lados do oriente, ia tomando uma cor baça de mercúrio e começava a arejar o escampo uma brisa fraca, trescalando a queima. 
                  Aves piavam e no alto giravam malabarescamente urubus de atalaia. De vez em quando, no cercado do casebre, um galo soava a voz estrídula, e outros, daqui e de lá, numa sucessão pausada, cocoricavam em resposta. 
                  Rolavam, de longe em longe, como num aviso de tormenta próxima, surdos rumores de trovões; mas a luz, cada vez mais incendida, cada vez mais escaldante e mais clara, parecia desmentir o anúncio da tempestade. Revoadas de pombos cruzavam com um tatalar sonoro, seguindo o rumo do vento, numa batida rápida, e, no quintalejo do casebre, um vulto de mulher, alta e fina, estacou entre os capins baixos, levou a mão espalmada à altura dos olhos, fitou a luz, e lentamente começou a recolher a roupa que corava no verde estendal de grama, enquanto um menino ia e vinha, a correr, carregando à cabeça paveias de capim novo, e as aves domésticas, cacarejando, acoutavam-se debaixo da ramaria frondosa das mangueiras. O vento começava a zurzir as folhas e escurecia com a rapidez com que descem os crepúsculos no inverno. 
                  Um frêmito de claridade percorreu todo o céu argamassado de nuvens e o rumor trovejante roncou mais forte, mais próximo, mais demorado; o ar pesava sufocante e, de vez em vez, circulava um redemoinho de poeira, em funil, dentro do qual ricocheteavam folhas. 
                   O dobre de um sino encheu momentaneamente o silêncio com a vibração ondulante de um misticismo meigo; outro dobre ressoou mais brando, como se partisse de mais longe, e logo após um, forte e claro, conforme as voltas bruscas do vento que soprava grosso. 
                  Dobrava afinados. Era o saimento da Teçaí, velha cabocla septuagenária, descendente dos fortíssimos Goytacazes, nascida e criada nesse lugar, primeiramente chamada de Taba de Itamina, pelo constante forgacho que ardia no monte, que diziam ser a alma pagã de Tagiíra, morta ao trocar o primeiro beijo, fulminada por Tupan justamente quando ia entregar a sua virgindade à volúpia brutal de um aventureiro branco. 
                  A gente simples de Itamina respeitava e temia a velha Teçaí, uns pelas suas pragas e malefícios, outros pelo terror da lenda que se criara em torno do seu nome. 
                  "Teçaí, a mãe das lágrimas, diziam em trovas os bardos das serranias, era filha da Yara Poranghi, fecundada por um raio de lua nova em Agosto. Nascera em uma Sexta-feira, à noite, à hora do primeiro cantar do galo. Na sua mocidade seus olhos tinham o poder de envenenar os homens e eram tão fortes seus olhos que, se por acaso se levantavam para o céu, as estrelas de Deus caíam moribundas." 
                   Era por isso que Itamina, à noite, quando no céu passava uma estrela cadente, os rústicos, perseguindo-se, diziam: 
                   - Mais uma vítima dos olhos maus de Teçaí! 
                   Os que conheceram a moça falavam com assombro da sua grande beleza, mas ninguém se bagou jamais de a ter possuído. 
Sobre os seus cabelos corria uma tradição ingênua e poética. Dizia uma canção: 
                   " Nos cheirosos cabelos de Taçaí, longos, negros e sedosos, nascem rosas e cravos, lírios e bogaris. "
                   " A cabeça de Teçaí é como um jardim cuidado - as flores das suas tranças dormem em botões fechados e, pela manhãzinha, justamente como as do campo, acordam desabrochadas." 
                    A poesia popular inspirara-se na estranha paixão índia pelas flores; porque ela andava sempre toucada de ramilhetes acreditavam que eles nasciam nos seus cabelos cheirosos.  
                    Á noite, os que viajavam, passando junto ao rio, achavam-na a bailar, falando á lua e às águas numa linguagem singular. Durante o dia cultivava a sua horta, junto à igreja.
                    Sucumbira de velhice, diziam, e lá ia o seu enterro triste, acompanhado por um borrego malhado, seu único amigo, e os que a levavam; ninguém mais.  O sino, entretanto, gemia pela pagã, a igreja abençoava a bárbara,   mas o céu, a mais e mais fechado, parecia trancar-se para não receber a alma infiel da índia feiticeira, cujo corpo encarquilhado ia a caminho da cova, ao tinir da sineta e ao triste balar do borrego, encerrado em uma arca, que nem um caixão lhe deram os piedosos cristãos de Itamina. 
                    Súbito, um clarão instantâneo iluminou o campo; durante uma pausa, o sino vibrou choroso, mas um formidável estrondo atroou os ares, abalando a terra; outro, logo em seguida, com um estalar de raio. Os bois assustados deitaram a correr aos galões, através da planície. Num ápice todos os campeiros montaram e a um grito partiram rebolando o sedenho, cravando de rijo as chilenas, atrás do gado que sumia perseguido pelos roncos da tormenta, na direção de um vale seco, cavado entre rochas. Mas a chuva varreu o campo, grossa, rabanando, açoitada por um vento desabrido que se levantara.  Sucediam-se os relâmpagos e os trovões ribombavam; longe, os gritos dos campeiros que afrontavam a tempestade brandindo os compridos ferrões, e além, o borrego da defunta, parado, indeciso, balando sob o aguaceiro, a olhar comovedoramente os homens que corriam sacolejando a morta dentro da velha arca. 
                   Sereno, tranquilo, continuando a bater à porta do céu com a sua prece, o sino, entretanto, insistia no seu ofício de religioso, triste, no púlpito do campanário, rezando pela morta o seu piedoso Réquiem monossilábico de sons. 
BREVE BIOGRAFIA 
Henrique Coelho Neto, escritor r romancista brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão, em 1864. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras.  A sua obra, muito extensa, compreende mais de sessenta trabalhos, entre romances, novelas, contos e obras de teatro. Foi professor no Ginásio do Rio de Janeiro. Escreveu: Rapsódias, contos; A Capital Federal, romance; Praga, novela; Baladilhas, contos; Inverno em flor, romance; O Morto; romance; A descoberta da índia., narrativa histórica. Por muito tempo foi o escritor mais lido do Brasil. Por esta obra, você podem ter uma ideia de sua grandiosidade literária. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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sábado, 20 de julho de 2013

HELENA de Machado de Assis


HELENA 
De Machado de Assis 
Resumo de Nicéas Romeo Zanchett 
Helena é um dos melhores livros do nosso grande escritor Machado de Assis, na sua primeira fase de feição romântica, e por ele mesmo é um livro particularmente prezado. 
De todos os do autor, é o que mais se presta a um resumo. Algo romanesco, na opinião do próprio Machado de Assis, tem força de mocidade, tem vida e muita arte de composição e de análise. 
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                     Ao morrer, deixou o conselheiro Valle, já viúvo, dois únicos parentes, um filho, Estácio, de 27 anos e engenheiro, e uma irmã solteira, D. Úrsula, de 50 e poucos anos, e que sempre vivera em sua companhia. Mas o testamento do conselheiro revelou a existência de uma outra filha, Helena, que ele reconhecia como herdeira de uma parte dos seus bens e que devia passar a viver com a família, a quem recomendava que a tratasse com desvelo e carinho. Helena estava, na ocasião, estudando num colégio de Botafogo - RJ. Tinha 17 anos. Semanas depois concluía os estudos; e D. Úrsula foi buscá-la. Não aceitava de boa mente essa incumbência, mas foi fazer o que devia. A moça, não obstante a consanguinidade agora conhecida, era de todo estranha à família. D. Úrsula, no seu íntimo,  reprovava a resolução do conselheiro; ao seu parecer bastava, como generosidade paterna, a parte do legado; era excessivo deixar-lhe também a coparticipação do afeto. Acompanhava-a nesse sentimento, e ainda com maior restrição, um velho amigo da família, o Dr. Camargo; entre as razões que o moviam, a mais forte e calada era o egoísmo de pai; tinha uma filha única, Eugênia, quase noiva de Estácio.  Estácio, por índole de coração, e por seu bom caráter, não formulou nem consentiu objeções à atitude do pai; e predispôs-se  à nova afeição fraternal, que parecia vir completar-lhe a vida doméstica. A impressão que teve de Helena foi melhor do que ele podia prever. Era uma linda moça,finamente educada e de inteligência aguda, superior à sua idade. 
                    Houve, como era natural, nos primeiros dias muito acanhamento, mas a familiaridade se fez sem demora, ainda que sem o abandono de irmãos, que se formam junto desde o berço. Em Estácio predominava sempre a surpresa do conhecimento progressivo, e a sua afeição trazia um perfume de enlevo. 
                    Helena captou também, aos poucos, a simpatia dos frequentadores da casa, salvo o Dr. Camargo, que a olhava sempre com o espírito prevenido. D.Úrsula resistia para não se deixar vencer pelas graças da sobrinha; mas teve de ceder de todo depois de uma moléstia grave em que Helena a assistiu como enfermeira dedicada, com solicitude e carinho de mãe.  O reconhecimento de D. Úrsula foi abundante e espontâneo. A primeira vez que saiu do quarto, amparando-a de um lado e do outro, Helena e Estácio  fizeram-na sentar-se em frente a uma janela da sala, que o sobrinho entreabriu para penetrar além da luz, um pouco de ar. D. Úrsula respirou longamente, como se estivesse lavando o pulmão com aquela primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficara de pé a seu lado, fê-la inclinar a fronte, e imprimiu-lhe um longo beijo, verdadeiramente maternal.  Estácio, aproximara-se; aquela manifestação encheu-o de júbilo. 
                   " Bem merecido beijo", exclamou ele. "Helena foi um anjo em todo esse tempo".
                   " Bem sei", retorquiu D. Úrsula; "foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Pode ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal mérito é só teu". 
                   Helena abraçou a convalescente. 
                   "Estácio", disse esta, "agradece a tua irmã, como eu fiz". 
                    Estácio inclinou-se para Helena, afim de lhe dar-lhe um beijo fraterno de irmão. Não o conseguiu, porque Helena, desviando-se estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda, e disse: 
                   " Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta-me o aperto de mão e o afeto de todos". 
                   Estácio apertou-lhe a mão e sentiu-a trêmula. Aquele movimento não lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bela.  
                   Fosse outro o estado do coração de Estácio, e havia de parecer-lhe exagerada e descabida, tamanha reserva no trato entre irmãos.  E notar-lhe-hia também  com estranheza o tremor da mão. Mas o enlevo prevalecia nele, e não o predispunha para uma análise do sentimento dela e dele. Na verdade, amava-se, como namorados um do outro; e a convivência ajudava o amor, sem que dessem acordo da natureza dessa atração que era idílica, mas não excedia a liberdade de dois irmãos amigos. Estácio notava, é certo, que já não era tão instante o seu amor a Eugênia, e tudo era pretexto para ele ir adiando a declaração de noivado.  Comparava Eugênia e Helena; e parecia-lhe que esta era o tipo da mulher e esposa; a outra era formosa, mas tinha a vaidade de sua beleza, amava-se sobretudo a si mesma no amor que podia inspirar a outrem. "Há cem belezas como aquela", disse ele a Helena, uma vez que esta lhe notara propositadamente a formosura da amiga. E insistia para que ele resolvesse logo o noivado. Estácio prometia, continuava a adiar, mas o seu pensamento era mais ocupado por Helena do que pela futura noiva. E surgia uma razão para preocupa-lo.
                   Surpreendera a irmã entretida na leitura de uma carta, que ela procurou esconder. Suspeitou um namoro; e a suspeita parecia confirmar-se com o procedimento da moça, que de quando em quando saia a cavalo, fazendo-se acompanhar de um escravo, em vez dele, e as vezes às escondidas dele.  Entrou a espreitá-la. E um dia fez-lhe uma alusão ao motivo secreto dos seus passeios. Estava os dois na chácara de casa. A moça não respondeu à indireta.  
                  "Helena", disse ele, "você ama".  
                  A moça estremeceu, e corou vivamente; olhou em volta de si como assustada e pousou as mãos nos ombros de Estácio. Refletiu ela no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa ocasião parecia concentrar-lhe todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente: 
                 "Muito! Muito! Muito!"  
                  Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula, pôs o dedo na boca como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava no seu rosto; Helena deu as costas ao irmão e afastou-se rapidamente. 
                  Pessoa que assistisse à cena teria concluído o verdadeiro sentimento dos dois. Mesmo sem ter ouvido esse e outros diálogos íntimos, compreendera-lhes o estado de alma o padre Melchior, velho capelão e amigo da família. Interviu diretamente para apressar o noivado de Estácio, o qual por fim se decidiu, a instâncias de Helena, solicitada pelo Dr. Camargo, pai de Eugênia. Pouco depois a família do Dr. Camargo teve de fazer uma viagem a Cantagalo, onde residia a madrinha de Eugênia, que adoecera gravemente. Eugênia era das possíveis herdeiras, e havendo outros parentes que assistiam a enferma, convinha-lhe estar o lado desta naqueles dias de crise. Era o que pensava o Dr. Camargo; a filha, porém, só iria indo também o seu noivo.  Estácio não pode levar avante a sua relutância, e partiu. Mas foi só com o corpo; a alma ficou-lhe toda em casa junto de Helena;  e é o que exprimia a efusão d'uma longa carta escrita à irmã. Leu-a o padre Melchior, quis ler também a resposta de Helena, e senhor do segredo confessado e inconfessável dos dois, confiante também no caráter de Helena, promove a sua anuência ao pedido de casamento que lhe fez então uma amigo de mocidade de Estácio, Mendonça,  recém-chegado da Europa. Só faltava a aprovação de Estácio, e com ele contava Mendonça. Mas apenas teve a notícia em Cantagalo, Estácio partiu para o Rio, e ao contrário da esperança de Mendonça, opôs ao noivado tanta displicência de maneiras e tais razões, que o amigo, contra o voto do padre Melchior, contra a declaração de Helena, entendeu retirar o seu pedido. A razão principal, antes pretexto, que opunha Estácio era a existência duma afeição oculta de Helena, e sobre a qual ele a interrogara. Na sua consciência confusa apontavam as dúvidas sobre o motivo dos pais de Helena.  E uma manhã, em que ele, por aturdir-se, saíra a caçar, aconteceu ver justamente Helena,  que saía de uma casa no caminho da Tijuca, a mesma casa desenhada por ela num quadro com que  e presenteara no dia de seu aniversário. O pagem escravo esperava-a com o cavalo a pequena distância. Estava ali, pois, a explicação dos passeios matinais de Helena. Não pode vencer o desejo de ir ele também à casa misteriosa, e uns arranhões sangrentos da mão, ao apoiar-se numa cerca de espinhos, deram-lhe ali logo o pretexto para bater à porta da casa como a pedir água para lavar-se do sangue. Abriu-lha o morador, homem de meia idade, de aspecto pobre, mas gentil, que se prontificou logo em fazer-lhe os curativos e o entreteve em palestra. 
                 O mistério crescia, com o desvanecimento da hipótese de que as visitas de Helena àquela casa  tivessem um intuito de caridade.  Nessa mesma tarde, Estácio, em retribuição a uma carícia efusiva de Helena, tomou do desenho dela e apontou-lhe a casa com um olhar, que exprimia dor, interrogação, e intimativa. A moça nada pode responder, tamanha foi a sua comoção. Recolheu-se a seu quarto, donde não saiu todo esse dia, recusando alimento.  Houve então um conselho de família, com a presença do padre Melchior, e afinal explicou-se o mistério. O morador da casa, Salvador, era  pai de Helena; o reconhecimento desta como filha, por parte do conselheiro Valle, fora um ato de piedosa afeição, na crença de que havia morrido o pai, na verdade só traído pela amante, mãe de Helena, que ao conhecer o conselheiro lhe ocultava o motivo  da ausência de Salvador. 
                   Este, apesar da afeição que tinha à filha, resignava-se a ser tido como morto, preferindo o seu sacrifício ao da felicidade de Helena. Revelara-se mais tarde à filha, e conseguiu com os seus argumentos fazer com que ela não rejeitasse  o reconhecimento testamentário e a parte da herança. Contentava-se com o sentir de longe o seu amor filial, e ter de quando em quando as suas visitas. Obtidas todas as explicações e comprovadas pelas cartas anteriores de Salvador e de Helena, ficou acordado que não mudasse a situação desta; a afeição da família não mudara, pela pessoa de  Helena, e era imprescindível evitar-se o escândalo da revelação, que prejudicava a memória do conselheiro Valle.  
                  E foi o que prevaleceu sobre o sentimento de Estácio, a quem sorria a possibilidade de realizar  o amor, de que tinha enfim a consciência. Helena, porém, não se conformava à ideia de que a pudessem julgar  uma aventureira. Se as afirmações que lhe faziam de que a estima de todas era igual e porventura ainda maior que antes, não lhe permitiam deixar a casa; não fraqueou a sua resolução de deixar-se morrer, para não afrontar a vergonha da situação. Na verdade o que lhe fazia o desespero era a necessidade de continuar a ser tida como irmã de Estácio, a quem ela amava. A morte desejada como solução veio provocada por ela. No delírio da febre, dois nomes volviam frequentemente aos lábios da enferma, o de Estácio e o de seu pai. Pouco antes de fechar para sempre, os olhos dela já volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estácio que o recebeu, olhar de amor, de saudade e de promessa. 
                  "Ânimo, meu filho!  disse a Estácio o capelão. 
                  " Perdi tudo, padre mestre!" gemeu Estácio. 


O resumo de grandes obras literárias, que tenho feito,  tem como principal objetivo despertar o interesse dos leitores para conhecer a literatura dos maiores escritores de todos os tempos. 
Nicéas Romeo Zanchett 

                


sexta-feira, 12 de julho de 2013

FELIZ ANIVERSÁRIO - Por Clarice Lispector - Laços de Família



FELIZ ANIVERSÁRIO 
Por Clarice Lispector 
 Laços de Família 
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                 A família foi pouco a pouco chegando.  Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de "pailletès" e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta.  O marido não veio por razões óbvias; não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados - e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas de babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata. 
                  Tendo Zilda - a filha com quem a aniversariante morava - disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como  numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada.  "Vim para não deixar de vir", dissera ela a Zilda, e em seguida  sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com "pailletés". 
                   Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda - a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante - e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se como bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca berta. 
                   E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.
                   Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos  de papelões alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito "Happy Birthday", em outros "Feliz Aniversário". No centro havia disposto o enorme bolo açucarado.
                   Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumarem a mesa. 
                   E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo  depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifando-lhe um pouco de água de colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado - sentara-a à mesa.  E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. 
                   De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa em ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o voo da mosca em torno do bolo. 
                   Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema. 
                   Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nenhum segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria - que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema - entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente ruidosa se cumprimentando como se todos tivessem esperando embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala - e inaugurando a festa. 
                  Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta à cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca. 
                   - Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho  mais velho, agora que Jonga tinha morrido. Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos. 
                   Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça, em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente. 
                   - Oitenta e nove anos!, ecoou Manuel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram  menos sua esposa. 
                   A velha não se manifestava. 
                   Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactus - nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo  assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes,  amarga, irônica. 
                   - Oitenta e nove anos! repetiu Manuel aflito, olhando para a esposa. 
                   A velha não se manifestava. 
                   Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente do croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo. 
                    - Não senhor! responde José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios! 
                    - Está certo, está certo! recuou Manuel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento. 
                    - Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe! 
                    Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro - ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos. 
                    E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito "89". Mas ninguém elogiou a ideia  de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas - ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, serviu como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela.  E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmado com um olhar autoritário os mais hesitantes e surpreendidos, "vamos! todos de uma vez!" - e todos de repente  começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhos esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram  em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês. 
                    Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira. 
                    Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor - e acendeu a lâmpada. 
                    - Viva mamãe! 
                    - Viva vovó! 
                    - Viva d. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido. 
                    - Happy Birthday! gritaram os netos, do Colégio Bennett. 
                    Bateram ainda algumas palmas ralas. 
                    A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco. 
                    - Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com as íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: parte o bolo vovó!
                    E de súbito a velha pegou a faca. E sem hesitação, como  se hesitando um momento eta toda caísse para frente, deu a primeira talhada com o punho de assassina. 
                    - Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia  se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava  um pouco horrorizada. 
                    - Há um ano atrás ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais folego do que eu, disse Zilda amarga. 
                   Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha. 
                   Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de reboliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda. 
                    Enquanto foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado?
                    E por assim dizer a festa estava terminada. 
                    Cordélia olhava ausente para todos, sorria. 
                    - Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante. 
                    - Está certo, está certo! recolheu-se Manuel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manuel sorrir e uma contração passou-lhe rápida pelos músculos d cara.  
                    - Hoje é dia da mãe! Disse José. 
                    Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. 
                    Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles filhos e neto e bisneto que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e entumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem.  Mas piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh! o desprezo pela vida que falhava. Como?! Como tendo sido tão forte pudera dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem  a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom.  Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha . Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão. 
                   - Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe,jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. - Mamãe,  que é isso! disse baixo, angustiada. A senhora nunca fez isso! acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela  percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança. 
                   - Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos. 
                   Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio. 
                   Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos - provavelmente já além dos cinqüenta anos,  que sei eu! - os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos - ainda mais fracos e mais azedos - haviam escolhido.  Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não aguenta a mão, aquelas mulherzinhas que casavam mal os filhos que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos - nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava. 
                   - Me dá um copo de vinho! disse. 
                   O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão. 
                   - Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta roliça e baixinha. 
                   - Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante.  Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! Me dá um copo de vinho, Dorothy! ordenou. 
                   Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, com máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha.  Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis. 
                   Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade. 
                   Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo. 
                   Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido. 
                   Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três  filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérola, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia.  Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar.  
                    E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. 



                                                    Clarice Lispector - Laços de Família. 
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Pesquisa e Postagem: Nicéas Romeo Zanchett