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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O ANEL DE POLICRATES - Por Machado de Assis


O ANEL DE POLICRATES 
Por Machado de Assis
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                 A - Lá vai o Xavier. 
                 Z - Conhece o Xavier? 
                 A - Ha que anos? Era um nababo, rico, podre de rico, mas pródigo. ..
                 Z - Que rico? que pródigo? 
                 A - Rico e pródigo, digo-lhe eu. Bebia pérolas diluídas em néctar. Comia língua de rouxinol. Nunca usou papel mata-borrão, por achá-lo vulgar e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita de pó de diamante. E mulheres!  Nem toda a pompa de Salomão pode dar ideia do que era Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha grega, a tez romana, a exuberância turca, todas as perfeições de uma raça, todas as  prendas de um clima, tudo era admitido no harém do Xavier. Um dia enamorou-se loucamente por uma senhora de alto coturno, e enviou-lhe de mimo três estrelas do Cruzeiro, que então contava sete, e não pense que o portador foi um dos arcanjos de Milton, que o Xavier chamou na ocasião em que ele cortava o azul para levar a admiração dos homens ao seu velho pai inglês. Era assim o Xavier.  Capeava os cigarros com um papel  de cristal, obra finíssima, e, para acendê-los, trazia consigo uma caixinha d raios de sol. As colchas da cama eram nuvens purpúreas, e assim também a esteira que forrava  o sofá de repouso, a poltrona da secretária e a rede. Sabe quem lhe fazia o café de manhã? A Aurora, com aqueles mesmos dedos cor de rosa, que Homero lhe pôs. Pobre Xavier! Tudo oque o capricho e a riqueza podem dar, o raro, o esquisito, o maravilhoso, o indescritível, o inimaginável, tudo teve e devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom coração. Ah! fortuna, fortuna! Onde estão agora as pérolas, os diamantes, as estrelas, as nuvens purpúreas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por água abaixo; o néctar virou zurrapa, os coxins são a pedra dura da rua, não manda estrelas às senhoras, nem tem arcanjos às suas ordens... 
                 Z - Você está enganado. O Xavier? Esse Xavier há de ser outro. O Xavier nababo! Mas o Xavier que ali vai nunca teve mais de duzentos mil réis mensais; é um homem poupado, sóbrio, deita-se com as galinhas, acorda  com os galos, e não escreve cartas a namoradas, porque não as tem. Se alguma expede aos amigos é pelo correio. Não é mendigo, nunca foi nababo. 
                 A - Creio; esse é o Xavier exterior. Mas nem só de pão vive o homem. Você fala de marta, eu falo-lhe de Maria; falo do Xavier especulativo... 
                 Z - Ah! - Mas ainda assim, não acho explicação; não me consta nada dele. Que livro, que poema, que quadro... 
                 A - desde quando o conhece?  
                 Z - Ha uns quinze anos.
                 A - Upa! Conheço-o ha muito mais tempo, desde que  ele estreou na rua do Ouvidor, em pleno marquês do Paraná. Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as coisas possíveis,  e até contrarias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma história, um libelo político, uma viagem à Europa, outra ao sertão de Minas, outra á lua, em certo balão que inventara, uma candidatura política, e arqueologia, e filosofia, e teatro, etc., etc., etc. Era um saco de espantos.  Quem conversava com ele senti vertigens. Imagine uma cachoeira de ideias e imagens, qual mais original, qual mais bela, às vezes extravagante, às vezes sublime. Note que ele tinha a convicção dos seus mesmos inventos.  Um dia, por exemplo, acordou com o plano de arrasar o morro do castelo, a troco das riquezas que  os jesuítas ali deixaram, segundo o povo crê. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objetos, deu-me dois tocheiros de ouro...
                 Z - Realmente... 
                 A - Ah! impagável. Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do cônego Benigno, e resolveu ir  logo ao sertão da Bahia, procurar a cidade misteriosa. Expôs-me o plano, descreveu-me a arquitetura provável da cidade, os templos, os palácios, gênero etrusco, os rito, os vasos, as roupas, os costumes...   
                 Z - Era então doido? 
                 A - Originalzão apenas? Odeio os carneiros de Panurgio, dizia ele, citando Rabelais: Comme vous sacavez estre du mouton le naturel, tousjours suivre le premier, quelque part qu'il aille. Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes de comer um mau bife em mesa separada. 
                 Z - Entretanto gostava da sociedade.
                 A - Gostava da sociedade, mas não amava os sócios.  Um amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que lhe respondeu? Respondeu com um apólogo, em que cada sócio figurava ser uma cuia de água, e a sociedade uma banheira. - Ora, eu não posso lavar-me em cuias de água, foi a sua conclusão. 
                 Z - Nada modesto. Que lhe disse o Pires? 
                 A - O Pires achou o apólogo tão bonito que o meteu numa comédia, de aí a tempos. Engraçado é que o Xavier ouviu o apólogo no teatro, e aplaudiu-o muito, com entusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a voz do sangue... Isto leva-me à explicação da atual miséria do Xavier.
                 Z - É verdade, não sei como se possa explicar que um nababo... 
                 A - Explica-se facilmente. Ele espalhava ideias à direita e à esquerda, como o céu chove, por uma necessidade física, e ainda por duas razões. A primeira é que  era impaciente, não sofria a gestação indispensável à obra escrita. A segunda é que varria com os olhos uma linha tão vasta de coisas, que mal poderia fixar-se em qualquer delas. Se não tivesse o verbo fluente, morreria de congestão mental; a palavra era o derivativo. As páginas que então falava, os capítulos que lhe borbotavam da boca, só precisavam de uma arte de os imprimir no ar, e depois no papel, para serem páginas e capítulos excelentes, alguns admiráveis. Nem tudo era límpido; mas a porção límpida superava a porção turva, como a vigília de Homero paga os seus cochilos.  Espalhava tudo, ao acaso,às mãos cheias, sem ver onde as sementes iam cair; algumas pegavam logo...
                 Z - Como a das cuias.
                 A - Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paixão das coisas belas, e, uma vez que a árvore fosse pomposa e verde, não lhe perguntava nunca pela semente sua mãe. Viveu assim longos anos, despendendo à toa, sem cálculo, sem fruto, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro pródigo. Com tal regime, que era a ausência  de regime, não admira que fosse pobre e miserável. Meu amigo, a imaginação e o espírito tem limites; a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conheço inesgotável debaixo do sol.  O Xavier não só perdeu as ideias que tinha, mas até exauriu a faculdade de criar; ficou oque sabemos. Que moeda rara se lhe hoje nas mãos? que sestércio de Horácio? que drama de Péricles? Nada. Gasta o seu lugar-comum, rafado das mãos dos outros, come à mesa redonda, fez-se trivial, chocho...
                 Z - Cuia, emfim. 
                 A - Justamente: cuia. 
                 Z - Pois muito me conta. Não sabia nada disso. fico inteirado; adeus. 
                 A - Vai a negócio? 
                 Z - Vou a um negócio. 
                 A - Dá-me dez minutos? 
                 Z  - Dou-lhe quinze. 
                 A - Quero referir-lhe a passagem mais interessante da  vida de Xavier. Aceite o meu abraço, e vamos andando. Vai para a praça? Vamos juntos. Um caso interessantíssimo. Foi ali por 1869 ou 70, não me recordo; ele mesmo é que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o cérebro gasto, chupado, estéril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora, - "uma bonita rosa"; falava do luar saudoso, do sacerdócio da imprensa, dos jantares opíparos  sem acrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. Começara a ficar hipocondríaco; e, um dia, estando à janela, triste, desabusado das coisas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavalo. De repente, o cavalo corcoveou, e o taful veio quase ao chão; mas sustentou-se,   e meteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue frio, a arte do cavaleiro.  Então, o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro não tivesse ânimo nenhum; não quis cair diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavalo. E dai veio uma ideia;comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e acrescentou sentenciosamente: "Quem não for cavaleiro, que o pareça." Realmente, não era uma ideia extraordinária; mas a penúria do Xavier tocara a tal extremo, que esse cristal pareceu-lhe um diamante. Ele repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de vários modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a definição, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.; e tão alegre, tão alegre como a casa de pobre em dia de peru. De noite, sonhou que efetivamente montava um cavalo manhoso, que este pinoteava com ele e o sacudia a um brejo. Acordou triste; a manhã, que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; meteu-se a ler e a cismar. Então lembrou-se... Conhece o caso do anel de Policrates? 
                 Z - Francamente, não. 
                 A - Nem eu; mas aqui vai oque me disse Xavier. Policrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que começou a recear alguma viravolta da Fortuna, e, para aplacá-la antecipadamente, determinou fazer um grane sacrifício; deitar ao mar o anel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna estava tão apostada de cumulá-lo de obséquios, que o anel foi engulido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou à posse do anel. Não afirmo nada a respeito desta anedota; foi ele quem me contou, citando Plínio, citando... 
                 Z - Não ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, não a um cavalo, mas... 
                 A - Nada disso. Não é capaz de adivinhar o plano estrambólico do pobre diabo. Experimentemos a fortuna, disse ele; vejamos se a minha ideia, lançada ao mar, pode tornar ao meu poder, como o anel de Policrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo será tal, que nunca mais lhe ponha a mão. 
                 Z - Ora essa!
                 A - Não é estrambótico? Policrates experimentara a felicidade; o Xavier quis tentar o caiporismo; intenções diversas, ação idêntica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assunto, e acabou dizendo oque era a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e quem não for cavaleiro que o pareça. Dita assim, esta frase era talvez fria; por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos anos, o malogro dos esforços  ou antes, os efeitos da imprevidência, e quando o peixe ficou de boca aberta, digo, quando a comoção do amigo chegou ao cume, foi que lhe atirou o anel, e fugiu a meter-se em casa. Isto que lhe conto é natural, crê-se, não é impossível; mas agora começa a juntar-se à realidade uma alta dose de imaginação. Seja o que for, repito oque ele me disse. Cerca de três semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no Leão de Ouro ou no Globo, não me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma frase sua, talvez com uma troca de um adjetivo. " Meu pobre anel, disse-lhe ele, eis-te emfim no peixe de Policrates." Mas a ideia bateu as asas e voou, sem que ele pudesse guardá-la na memória. Resignou-se.  Dias depois, foi convidado a um baile; era um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente distinção nobiliária. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o sorvete e o chá ouviu um grupo de pessoas que louvava a carreira do barão, a sua vida próspera, rígida, modelo, ouviu compara o barão a um cavaleiro emérito. Pasmo dos ouvintes, porque o barão não montava a cavalo. Mas o panegirista explicou que a vida não é mais do que um cavalo xucro ou manhoso, sobre o qual ou se há de ser cavaleiro ou parecê-lo, e o barão era- excelente. " - Entra, meu querido anel, disse Xavier, entra no dedo de Policrates." Mas de novo a ideia bate as asas, sem querer ouvi-lo. Dias depois... 
                Z - Adivinho o resto: uma série de encontros e fugas do mesmo gênero.
                A - Justo. 
                Z - Mas, emfim, apanhou-o um dia.
                A - Um dia só, e foi então que me contou o caso digno de memória. Tão contente que ele estava nesse dia! Jurou-me que ia escrever, a propósito disto um conto fantástico, à maneira de Edgardo Poe,  uma página fulgurante, pontuada de mistérios, - s~]ao as suas próprias expressões; - e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o anel fugira-lhe outra vez. "Meu caro A, disse-me ele, com um sorriso fino e sarcástico; tens em mim o Policrates do caiporismo; nomeio-te meu ministro honorário e gratuito."  Dai em diante foi sempre a mesma coisa. Quando ele supunha por a mão em cima da ideia, ela batia as asas, plas, plas, plas, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho. Outro peixe a engoli e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos casos que ele me contou naquele dia, que dizer-lhe três... 
                 Z - Não posso; lá se vão os quinze minuto. 
                 A - Conto-lhe só três. Um dia, o Xavier chegou a crer que podia emfim agarrar a fugitiva, e fincá-la perpetuamente no cérebro. Abriu um jornal de oposição, e leu estupefato estas palavras: "O ministério parece ignorar que a política é, como a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e, não podendo ser bom cavaleiro, porque nunca o foi, devia ao menos parecer que o é." Ah! emfim, exclamou Xavier, cá estás engastado no bucho do peixe; já me não podes fugir. Mas, em vão! a ideia fugia-lhe, sem deixar outro vestígio mais do que uma confusa reminiscência. Sombrio, desesperado, começou a andar, a andar, até que a noite caiu; passando por um teatro, entrou; muta gente, muitas luzes, muita alegria; o coração aquietou-se-lhe. Cumulo de benefícios; era uma comédia do Pires, uma comédia nova. Sentou-se  ao pé do autor, aplaudiu a obra com entusiasmo, com sincero amor de artista e de irmão. No segundo ato, cena VIII, estremeceu. "D. Eugênia, diz o galã a uma senhora, o cavalo pode ser comparado à vida, que é também um cavalo xucro ou manhoso; quem não for bom cavaleiro, deve cuidar de parecer que o é." O autor com olhar tímido, espiava no rosto do Xavier o efeito daquela reflexão, enquanto o Xavier repetia a mesma súplica das outras vezes: - "Meu querido anel..."
                 Z - Et nunc et semper... Venha o último encontro, que são horas. 
                 A - O último foi primeiro. Já disse que o Xavier transmitira a ideia a um amigo. Uma semana depois da comédia cai o amigo doente, com tal gravidade que em quatro dias estava à morte. O Xavier corre vê-lo; e o infeliz ainda o pode conhecer, estender-lhe a mão fria e trêmula, cravar-lhe um longo olhar baço da última hora, e, com a voz sumida, eco do sepulcro, soluçar-lhe: " Cá vou, meu caro Xavier, o cavalo xucro ou manhoso da vida deitou-me ao chão; se fui mau cavaleiro, não sei; mas forcei por parecê-lo bom." Não se ria; ele contou-me isto com lágrimas. Contou-me também que a ideia ainda esvoaçou alguns minutos sobre o cadáver, faiscando as belas asas de cristal, que ele cria ser diamante; depois  estalou um risinho de escarno, ingrato e parricida, e fugiu como das outras vezes, metendo-se no cérebro de alguns sujeitos, amigos da casa, que ali estavam, transidos de dor, e recolheram com saudade esse pio legado do defunto. Adeus. 
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BREVE BIOGRAFIA 
Joaquim Maria Machado de Assis, poeta e romancista brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 21 de Junho de 1839 e faleceu em 25 de Setembro de 1908. Membro da Academia Brasileira de Letras, foi até morrer o seu presidente sempre reeleito. Escreveu: Crisalidas, 1864; Falenas, 1870; Americanas, 1875, três volumes de versos que o consagraram como poeta. Da sua vasta obra de romancista temos: Don Casmurro; Quincas Borba; Memórias póstumas de Brás Cuba, 1881; Memoriam de Aires; Helena; Jayá Garcia; A mão e a Luva. Para o teatro escreveu: O caminho d posta; Uma Ode de Anacreonte. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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terça-feira, 27 de agosto de 2013

O ENTERRO - Por Coelho Neto


O ENTERRO 
 Por Coelho Neto 
               Outubro. O sol, em pleno meio-dia, alargava por todo o campo uma luz fixa e cáustica. Não havia sombra, tudo resplandecia de claridade e um tédio pesado e morno de preguiça parecia ter-se apoderado das próprias coisas, prendendo-as numa imobilidade morta, de onde nem mesmo o bulir das folhas tirava o doce murmúrio, tão agradável ao ouvido de quem trabalha sob rude prancha de uma soalheira viva. 
                Nas escarpas, esterilmente nuas, cabras, berravam com melancolia, e, de momento em momento, um boi magro surgia entre as palhas secas dos milhos, lento, estafado e mole, esticava o pescoço esfolado pela canga e mugia, ficando depois com o focinho à altura das praganas louras, contemplativo e tristonho, a olhar o céu de um azul liso e forte. 
                Por baixo, num largo planalto de terra vermelha, limpa de fresco, recentemente gredada, uma charrua arrastava-se ao passo tardo de dois touros. 
                Do céu quente, sob a radiação nevrótica do sol, caía uma paz cansada, e na vasta planície nua, toda de restolho, ceifada de extremo a extremo, erguia-se apenas um casebre tosco, metido dentro de um cercado, à sombra quieta de um mangueiral ramalhoso.  
                 A par da estrada, de um amarelo sujo e peco, orlada de espinhais mirrados, corria, murmuroso e pesado, o rio sonolento, onde a figura solitária de uma lavadeira brandia panos, metida n'água até aos joelhos.  No alto de um monte, fechado de mato intenso, ardia tremulamente, fumarando espirais de cor turquesa nova, um fogo de estio, aceso espontaneamente, como outrora arderam no cume do Sinai as sarças de onde surgiu Jeová ditando a Moisés as leis do Decálogo.  
                 Para além andava-se em recua, gente miúda, pequena como as ervas rentes, diminuída consideravelmente pela distância, mourejava; ouvia-se o relincho prolongado de um carro primitivo, que vinha sulcando a terra com rodas compactas, atulhado de lenha.
                  De repente uma voz fina partiu a cantar gemedoramente e, antes de morrer de todo, um coro tomou do eco e entoou o mesmo canto, num ritornelo grave. Dois homens, a cavalo, surgiram detrás da barranca; em seguida as madrinhas, duas vacas mansas, tinindo cincerros; a boiada depois, submissa e vagarosa, turbilhonando o pó vermelho da estrada, e por fim um magote de campeiros, pampilho em punho, cantando numa toada indolente o coro pastoral. 
                  A tropa ganhou o campo. Reboaram gritos de: - EH! Ahuu! EH! lou! cá, cá, cá, ehou!
                  E o gado  solto, tresmalhou na pastagem, começando, à luz intensa e abafada, o rouco mugir dos touros, um após outro, dois a um tempo, e o galope dos bezerros, enquanto os guieiros, pulando abaixo dos lombilhos, desciam na direção do rio, juntos, ficando um só de guarda. 
                  O céu, para os lados do oriente, ia tomando uma cor baça de mercúrio e começava a arejar o escampo uma brisa fraca, trescalando a queima. 
                  Aves piavam e no alto giravam malabarescamente urubus de atalaia. De vez em quando, no cercado do casebre, um galo soava a voz estrídula, e outros, daqui e de lá, numa sucessão pausada, cocoricavam em resposta. 
                  Rolavam, de longe em longe, como num aviso de tormenta próxima, surdos rumores de trovões; mas a luz, cada vez mais incendida, cada vez mais escaldante e mais clara, parecia desmentir o anúncio da tempestade. Revoadas de pombos cruzavam com um tatalar sonoro, seguindo o rumo do vento, numa batida rápida, e, no quintalejo do casebre, um vulto de mulher, alta e fina, estacou entre os capins baixos, levou a mão espalmada à altura dos olhos, fitou a luz, e lentamente começou a recolher a roupa que corava no verde estendal de grama, enquanto um menino ia e vinha, a correr, carregando à cabeça paveias de capim novo, e as aves domésticas, cacarejando, acoutavam-se debaixo da ramaria frondosa das mangueiras. O vento começava a zurzir as folhas e escurecia com a rapidez com que descem os crepúsculos no inverno. 
                  Um frêmito de claridade percorreu todo o céu argamassado de nuvens e o rumor trovejante roncou mais forte, mais próximo, mais demorado; o ar pesava sufocante e, de vez em vez, circulava um redemoinho de poeira, em funil, dentro do qual ricocheteavam folhas. 
                   O dobre de um sino encheu momentaneamente o silêncio com a vibração ondulante de um misticismo meigo; outro dobre ressoou mais brando, como se partisse de mais longe, e logo após um, forte e claro, conforme as voltas bruscas do vento que soprava grosso. 
                  Dobrava afinados. Era o saimento da Teçaí, velha cabocla septuagenária, descendente dos fortíssimos Goytacazes, nascida e criada nesse lugar, primeiramente chamada de Taba de Itamina, pelo constante forgacho que ardia no monte, que diziam ser a alma pagã de Tagiíra, morta ao trocar o primeiro beijo, fulminada por Tupan justamente quando ia entregar a sua virgindade à volúpia brutal de um aventureiro branco. 
                  A gente simples de Itamina respeitava e temia a velha Teçaí, uns pelas suas pragas e malefícios, outros pelo terror da lenda que se criara em torno do seu nome. 
                  "Teçaí, a mãe das lágrimas, diziam em trovas os bardos das serranias, era filha da Yara Poranghi, fecundada por um raio de lua nova em Agosto. Nascera em uma Sexta-feira, à noite, à hora do primeiro cantar do galo. Na sua mocidade seus olhos tinham o poder de envenenar os homens e eram tão fortes seus olhos que, se por acaso se levantavam para o céu, as estrelas de Deus caíam moribundas." 
                   Era por isso que Itamina, à noite, quando no céu passava uma estrela cadente, os rústicos, perseguindo-se, diziam: 
                   - Mais uma vítima dos olhos maus de Teçaí! 
                   Os que conheceram a moça falavam com assombro da sua grande beleza, mas ninguém se bagou jamais de a ter possuído. 
Sobre os seus cabelos corria uma tradição ingênua e poética. Dizia uma canção: 
                   " Nos cheirosos cabelos de Taçaí, longos, negros e sedosos, nascem rosas e cravos, lírios e bogaris. "
                   " A cabeça de Teçaí é como um jardim cuidado - as flores das suas tranças dormem em botões fechados e, pela manhãzinha, justamente como as do campo, acordam desabrochadas." 
                    A poesia popular inspirara-se na estranha paixão índia pelas flores; porque ela andava sempre toucada de ramilhetes acreditavam que eles nasciam nos seus cabelos cheirosos.  
                    Á noite, os que viajavam, passando junto ao rio, achavam-na a bailar, falando á lua e às águas numa linguagem singular. Durante o dia cultivava a sua horta, junto à igreja.
                    Sucumbira de velhice, diziam, e lá ia o seu enterro triste, acompanhado por um borrego malhado, seu único amigo, e os que a levavam; ninguém mais.  O sino, entretanto, gemia pela pagã, a igreja abençoava a bárbara,   mas o céu, a mais e mais fechado, parecia trancar-se para não receber a alma infiel da índia feiticeira, cujo corpo encarquilhado ia a caminho da cova, ao tinir da sineta e ao triste balar do borrego, encerrado em uma arca, que nem um caixão lhe deram os piedosos cristãos de Itamina. 
                    Súbito, um clarão instantâneo iluminou o campo; durante uma pausa, o sino vibrou choroso, mas um formidável estrondo atroou os ares, abalando a terra; outro, logo em seguida, com um estalar de raio. Os bois assustados deitaram a correr aos galões, através da planície. Num ápice todos os campeiros montaram e a um grito partiram rebolando o sedenho, cravando de rijo as chilenas, atrás do gado que sumia perseguido pelos roncos da tormenta, na direção de um vale seco, cavado entre rochas. Mas a chuva varreu o campo, grossa, rabanando, açoitada por um vento desabrido que se levantara.  Sucediam-se os relâmpagos e os trovões ribombavam; longe, os gritos dos campeiros que afrontavam a tempestade brandindo os compridos ferrões, e além, o borrego da defunta, parado, indeciso, balando sob o aguaceiro, a olhar comovedoramente os homens que corriam sacolejando a morta dentro da velha arca. 
                   Sereno, tranquilo, continuando a bater à porta do céu com a sua prece, o sino, entretanto, insistia no seu ofício de religioso, triste, no púlpito do campanário, rezando pela morta o seu piedoso Réquiem monossilábico de sons. 
BREVE BIOGRAFIA 
Henrique Coelho Neto, escritor r romancista brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão, em 1864. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras.  A sua obra, muito extensa, compreende mais de sessenta trabalhos, entre romances, novelas, contos e obras de teatro. Foi professor no Ginásio do Rio de Janeiro. Escreveu: Rapsódias, contos; A Capital Federal, romance; Praga, novela; Baladilhas, contos; Inverno em flor, romance; O Morto; romance; A descoberta da índia., narrativa histórica. Por muito tempo foi o escritor mais lido do Brasil. Por esta obra, você podem ter uma ideia de sua grandiosidade literária. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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sábado, 20 de julho de 2013

HELENA de Machado de Assis


HELENA 
De Machado de Assis 
Resumo de Nicéas Romeo Zanchett 
Helena é um dos melhores livros do nosso grande escritor Machado de Assis, na sua primeira fase de feição romântica, e por ele mesmo é um livro particularmente prezado. 
De todos os do autor, é o que mais se presta a um resumo. Algo romanesco, na opinião do próprio Machado de Assis, tem força de mocidade, tem vida e muita arte de composição e de análise. 
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                     Ao morrer, deixou o conselheiro Valle, já viúvo, dois únicos parentes, um filho, Estácio, de 27 anos e engenheiro, e uma irmã solteira, D. Úrsula, de 50 e poucos anos, e que sempre vivera em sua companhia. Mas o testamento do conselheiro revelou a existência de uma outra filha, Helena, que ele reconhecia como herdeira de uma parte dos seus bens e que devia passar a viver com a família, a quem recomendava que a tratasse com desvelo e carinho. Helena estava, na ocasião, estudando num colégio de Botafogo - RJ. Tinha 17 anos. Semanas depois concluía os estudos; e D. Úrsula foi buscá-la. Não aceitava de boa mente essa incumbência, mas foi fazer o que devia. A moça, não obstante a consanguinidade agora conhecida, era de todo estranha à família. D. Úrsula, no seu íntimo,  reprovava a resolução do conselheiro; ao seu parecer bastava, como generosidade paterna, a parte do legado; era excessivo deixar-lhe também a coparticipação do afeto. Acompanhava-a nesse sentimento, e ainda com maior restrição, um velho amigo da família, o Dr. Camargo; entre as razões que o moviam, a mais forte e calada era o egoísmo de pai; tinha uma filha única, Eugênia, quase noiva de Estácio.  Estácio, por índole de coração, e por seu bom caráter, não formulou nem consentiu objeções à atitude do pai; e predispôs-se  à nova afeição fraternal, que parecia vir completar-lhe a vida doméstica. A impressão que teve de Helena foi melhor do que ele podia prever. Era uma linda moça,finamente educada e de inteligência aguda, superior à sua idade. 
                    Houve, como era natural, nos primeiros dias muito acanhamento, mas a familiaridade se fez sem demora, ainda que sem o abandono de irmãos, que se formam junto desde o berço. Em Estácio predominava sempre a surpresa do conhecimento progressivo, e a sua afeição trazia um perfume de enlevo. 
                    Helena captou também, aos poucos, a simpatia dos frequentadores da casa, salvo o Dr. Camargo, que a olhava sempre com o espírito prevenido. D.Úrsula resistia para não se deixar vencer pelas graças da sobrinha; mas teve de ceder de todo depois de uma moléstia grave em que Helena a assistiu como enfermeira dedicada, com solicitude e carinho de mãe.  O reconhecimento de D. Úrsula foi abundante e espontâneo. A primeira vez que saiu do quarto, amparando-a de um lado e do outro, Helena e Estácio  fizeram-na sentar-se em frente a uma janela da sala, que o sobrinho entreabriu para penetrar além da luz, um pouco de ar. D. Úrsula respirou longamente, como se estivesse lavando o pulmão com aquela primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficara de pé a seu lado, fê-la inclinar a fronte, e imprimiu-lhe um longo beijo, verdadeiramente maternal.  Estácio, aproximara-se; aquela manifestação encheu-o de júbilo. 
                   " Bem merecido beijo", exclamou ele. "Helena foi um anjo em todo esse tempo".
                   " Bem sei", retorquiu D. Úrsula; "foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Pode ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal mérito é só teu". 
                   Helena abraçou a convalescente. 
                   "Estácio", disse esta, "agradece a tua irmã, como eu fiz". 
                    Estácio inclinou-se para Helena, afim de lhe dar-lhe um beijo fraterno de irmão. Não o conseguiu, porque Helena, desviando-se estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda, e disse: 
                   " Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta-me o aperto de mão e o afeto de todos". 
                   Estácio apertou-lhe a mão e sentiu-a trêmula. Aquele movimento não lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bela.  
                   Fosse outro o estado do coração de Estácio, e havia de parecer-lhe exagerada e descabida, tamanha reserva no trato entre irmãos.  E notar-lhe-hia também  com estranheza o tremor da mão. Mas o enlevo prevalecia nele, e não o predispunha para uma análise do sentimento dela e dele. Na verdade, amava-se, como namorados um do outro; e a convivência ajudava o amor, sem que dessem acordo da natureza dessa atração que era idílica, mas não excedia a liberdade de dois irmãos amigos. Estácio notava, é certo, que já não era tão instante o seu amor a Eugênia, e tudo era pretexto para ele ir adiando a declaração de noivado.  Comparava Eugênia e Helena; e parecia-lhe que esta era o tipo da mulher e esposa; a outra era formosa, mas tinha a vaidade de sua beleza, amava-se sobretudo a si mesma no amor que podia inspirar a outrem. "Há cem belezas como aquela", disse ele a Helena, uma vez que esta lhe notara propositadamente a formosura da amiga. E insistia para que ele resolvesse logo o noivado. Estácio prometia, continuava a adiar, mas o seu pensamento era mais ocupado por Helena do que pela futura noiva. E surgia uma razão para preocupa-lo.
                   Surpreendera a irmã entretida na leitura de uma carta, que ela procurou esconder. Suspeitou um namoro; e a suspeita parecia confirmar-se com o procedimento da moça, que de quando em quando saia a cavalo, fazendo-se acompanhar de um escravo, em vez dele, e as vezes às escondidas dele.  Entrou a espreitá-la. E um dia fez-lhe uma alusão ao motivo secreto dos seus passeios. Estava os dois na chácara de casa. A moça não respondeu à indireta.  
                  "Helena", disse ele, "você ama".  
                  A moça estremeceu, e corou vivamente; olhou em volta de si como assustada e pousou as mãos nos ombros de Estácio. Refletiu ela no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa ocasião parecia concentrar-lhe todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente: 
                 "Muito! Muito! Muito!"  
                  Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula, pôs o dedo na boca como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava no seu rosto; Helena deu as costas ao irmão e afastou-se rapidamente. 
                  Pessoa que assistisse à cena teria concluído o verdadeiro sentimento dos dois. Mesmo sem ter ouvido esse e outros diálogos íntimos, compreendera-lhes o estado de alma o padre Melchior, velho capelão e amigo da família. Interviu diretamente para apressar o noivado de Estácio, o qual por fim se decidiu, a instâncias de Helena, solicitada pelo Dr. Camargo, pai de Eugênia. Pouco depois a família do Dr. Camargo teve de fazer uma viagem a Cantagalo, onde residia a madrinha de Eugênia, que adoecera gravemente. Eugênia era das possíveis herdeiras, e havendo outros parentes que assistiam a enferma, convinha-lhe estar o lado desta naqueles dias de crise. Era o que pensava o Dr. Camargo; a filha, porém, só iria indo também o seu noivo.  Estácio não pode levar avante a sua relutância, e partiu. Mas foi só com o corpo; a alma ficou-lhe toda em casa junto de Helena;  e é o que exprimia a efusão d'uma longa carta escrita à irmã. Leu-a o padre Melchior, quis ler também a resposta de Helena, e senhor do segredo confessado e inconfessável dos dois, confiante também no caráter de Helena, promove a sua anuência ao pedido de casamento que lhe fez então uma amigo de mocidade de Estácio, Mendonça,  recém-chegado da Europa. Só faltava a aprovação de Estácio, e com ele contava Mendonça. Mas apenas teve a notícia em Cantagalo, Estácio partiu para o Rio, e ao contrário da esperança de Mendonça, opôs ao noivado tanta displicência de maneiras e tais razões, que o amigo, contra o voto do padre Melchior, contra a declaração de Helena, entendeu retirar o seu pedido. A razão principal, antes pretexto, que opunha Estácio era a existência duma afeição oculta de Helena, e sobre a qual ele a interrogara. Na sua consciência confusa apontavam as dúvidas sobre o motivo dos pais de Helena.  E uma manhã, em que ele, por aturdir-se, saíra a caçar, aconteceu ver justamente Helena,  que saía de uma casa no caminho da Tijuca, a mesma casa desenhada por ela num quadro com que  e presenteara no dia de seu aniversário. O pagem escravo esperava-a com o cavalo a pequena distância. Estava ali, pois, a explicação dos passeios matinais de Helena. Não pode vencer o desejo de ir ele também à casa misteriosa, e uns arranhões sangrentos da mão, ao apoiar-se numa cerca de espinhos, deram-lhe ali logo o pretexto para bater à porta da casa como a pedir água para lavar-se do sangue. Abriu-lha o morador, homem de meia idade, de aspecto pobre, mas gentil, que se prontificou logo em fazer-lhe os curativos e o entreteve em palestra. 
                 O mistério crescia, com o desvanecimento da hipótese de que as visitas de Helena àquela casa  tivessem um intuito de caridade.  Nessa mesma tarde, Estácio, em retribuição a uma carícia efusiva de Helena, tomou do desenho dela e apontou-lhe a casa com um olhar, que exprimia dor, interrogação, e intimativa. A moça nada pode responder, tamanha foi a sua comoção. Recolheu-se a seu quarto, donde não saiu todo esse dia, recusando alimento.  Houve então um conselho de família, com a presença do padre Melchior, e afinal explicou-se o mistério. O morador da casa, Salvador, era  pai de Helena; o reconhecimento desta como filha, por parte do conselheiro Valle, fora um ato de piedosa afeição, na crença de que havia morrido o pai, na verdade só traído pela amante, mãe de Helena, que ao conhecer o conselheiro lhe ocultava o motivo  da ausência de Salvador. 
                   Este, apesar da afeição que tinha à filha, resignava-se a ser tido como morto, preferindo o seu sacrifício ao da felicidade de Helena. Revelara-se mais tarde à filha, e conseguiu com os seus argumentos fazer com que ela não rejeitasse  o reconhecimento testamentário e a parte da herança. Contentava-se com o sentir de longe o seu amor filial, e ter de quando em quando as suas visitas. Obtidas todas as explicações e comprovadas pelas cartas anteriores de Salvador e de Helena, ficou acordado que não mudasse a situação desta; a afeição da família não mudara, pela pessoa de  Helena, e era imprescindível evitar-se o escândalo da revelação, que prejudicava a memória do conselheiro Valle.  
                  E foi o que prevaleceu sobre o sentimento de Estácio, a quem sorria a possibilidade de realizar  o amor, de que tinha enfim a consciência. Helena, porém, não se conformava à ideia de que a pudessem julgar  uma aventureira. Se as afirmações que lhe faziam de que a estima de todas era igual e porventura ainda maior que antes, não lhe permitiam deixar a casa; não fraqueou a sua resolução de deixar-se morrer, para não afrontar a vergonha da situação. Na verdade o que lhe fazia o desespero era a necessidade de continuar a ser tida como irmã de Estácio, a quem ela amava. A morte desejada como solução veio provocada por ela. No delírio da febre, dois nomes volviam frequentemente aos lábios da enferma, o de Estácio e o de seu pai. Pouco antes de fechar para sempre, os olhos dela já volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estácio que o recebeu, olhar de amor, de saudade e de promessa. 
                  "Ânimo, meu filho!  disse a Estácio o capelão. 
                  " Perdi tudo, padre mestre!" gemeu Estácio. 


O resumo de grandes obras literárias, que tenho feito,  tem como principal objetivo despertar o interesse dos leitores para conhecer a literatura dos maiores escritores de todos os tempos. 
Nicéas Romeo Zanchett 

                


sexta-feira, 12 de julho de 2013

FELIZ ANIVERSÁRIO - Por Clarice Lispector - Laços de Família



FELIZ ANIVERSÁRIO 
Por Clarice Lispector 
 Laços de Família 
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                 A família foi pouco a pouco chegando.  Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de "pailletès" e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta.  O marido não veio por razões óbvias; não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados - e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas de babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata. 
                  Tendo Zilda - a filha com quem a aniversariante morava - disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como  numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada.  "Vim para não deixar de vir", dissera ela a Zilda, e em seguida  sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com "pailletés". 
                   Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda - a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante - e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se como bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca berta. 
                   E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.
                   Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos  de papelões alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito "Happy Birthday", em outros "Feliz Aniversário". No centro havia disposto o enorme bolo açucarado.
                   Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumarem a mesa. 
                   E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo  depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifando-lhe um pouco de água de colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado - sentara-a à mesa.  E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. 
                   De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa em ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o voo da mosca em torno do bolo. 
                   Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema. 
                   Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nenhum segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria - que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema - entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente ruidosa se cumprimentando como se todos tivessem esperando embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala - e inaugurando a festa. 
                  Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta à cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca. 
                   - Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho  mais velho, agora que Jonga tinha morrido. Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos. 
                   Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça, em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente. 
                   - Oitenta e nove anos!, ecoou Manuel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram  menos sua esposa. 
                   A velha não se manifestava. 
                   Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactus - nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo  assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes,  amarga, irônica. 
                   - Oitenta e nove anos! repetiu Manuel aflito, olhando para a esposa. 
                   A velha não se manifestava. 
                   Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente do croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo. 
                    - Não senhor! responde José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios! 
                    - Está certo, está certo! recuou Manuel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento. 
                    - Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe! 
                    Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro - ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos. 
                    E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito "89". Mas ninguém elogiou a ideia  de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas - ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, serviu como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela.  E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmado com um olhar autoritário os mais hesitantes e surpreendidos, "vamos! todos de uma vez!" - e todos de repente  começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhos esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram  em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês. 
                    Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira. 
                    Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor - e acendeu a lâmpada. 
                    - Viva mamãe! 
                    - Viva vovó! 
                    - Viva d. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido. 
                    - Happy Birthday! gritaram os netos, do Colégio Bennett. 
                    Bateram ainda algumas palmas ralas. 
                    A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco. 
                    - Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com as íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: parte o bolo vovó!
                    E de súbito a velha pegou a faca. E sem hesitação, como  se hesitando um momento eta toda caísse para frente, deu a primeira talhada com o punho de assassina. 
                    - Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia  se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava  um pouco horrorizada. 
                    - Há um ano atrás ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais folego do que eu, disse Zilda amarga. 
                   Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha. 
                   Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de reboliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda. 
                    Enquanto foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado?
                    E por assim dizer a festa estava terminada. 
                    Cordélia olhava ausente para todos, sorria. 
                    - Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante. 
                    - Está certo, está certo! recolheu-se Manuel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manuel sorrir e uma contração passou-lhe rápida pelos músculos d cara.  
                    - Hoje é dia da mãe! Disse José. 
                    Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. 
                    Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles filhos e neto e bisneto que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e entumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem.  Mas piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh! o desprezo pela vida que falhava. Como?! Como tendo sido tão forte pudera dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem  a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom.  Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha . Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão. 
                   - Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe,jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. - Mamãe,  que é isso! disse baixo, angustiada. A senhora nunca fez isso! acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela  percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança. 
                   - Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos. 
                   Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio. 
                   Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos - provavelmente já além dos cinqüenta anos,  que sei eu! - os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos - ainda mais fracos e mais azedos - haviam escolhido.  Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não aguenta a mão, aquelas mulherzinhas que casavam mal os filhos que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos - nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava. 
                   - Me dá um copo de vinho! disse. 
                   O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão. 
                   - Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta roliça e baixinha. 
                   - Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante.  Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! Me dá um copo de vinho, Dorothy! ordenou. 
                   Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, com máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha.  Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis. 
                   Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade. 
                   Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo. 
                   Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido. 
                   Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três  filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérola, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia.  Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar.  
                    E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. 



                                                    Clarice Lispector - Laços de Família. 
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Pesquisa e Postagem: Nicéas Romeo Zanchett 





quinta-feira, 27 de junho de 2013

UM HOMEM DE CONSCIÊNCIA - por Monteiro Lobato


HUM HOMEM DE CONSCIÊNCIA 
de Cidades Mortas 
Por Monteiro Lobato

                     Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro. 
                     Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis sequer o que todos ali queriam; mudar-se para terra melhor. 
                     Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o desaparecimento visível de sua Itaoca. - Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve médicos bem bons - agora só um e bem ruinzinho. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para rábula ordinário como Teodoro. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que precisa se mudá. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaóca está se acabando...
                      João Teodoro entrou a incubar a ideia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato  qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaóca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível. 
                      - É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaóca não vale mais  nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui. 
                      Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada... 
                      Ser delegado numa cidadinha daquelas é coisa raríssima. Não há cargo mais importante. É o homem  que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado - e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaóca!... 
                       João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. 
                       Pela madrugada botou-as num burro, montou no seu cavalinho magro e partiu.
                       Antes de deixar a cidade foi visto por uma amigo madrugador.
                       - Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens? 
                       - Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaóca chegou mesmo ao fim. 
                       - Mas, como? Agora que você está delegado? 
                       - Justamente por isso.  Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. 
                       - Adeus. 
                       E sumiu. 
  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A ÁRVORE QUE CANTA - Por Coelho Netto


A ÁRVORE QUE CANTA
Por Coelho Netto 
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                 Certa manhã o rei, que prometera a mão da princesa a quem conseguisse chegar ao reino das fadas, foi avisado de que certo mancebo desejava falar-lhe para referir episódios maravilhosos da viagem que empreendera ao país encantado, onde mortal algum jamais chegara. 
                 O rei ficou em alvoroçada curiosidade e todos os áulicos agitaram-se com a noticia, sendo imediatamente despachada  ordem para que o mancebo fosse introduzido na sala do trono, onde o monarca o esperava entre nobres da sua corte. 
                 A princesa não desviava os lindos olhos da porta por onde devia entrar o ousado moço que, por seu amor, arriscara a vida entre gnomos e dragões, que tais eram os guardas das sete portas de bronze da capital do reino das fadas, e sorriu alegremente comovida, com duas rosas  vivas nas faces, vendo aparecer o herói, que era jovem, formoso e gentil. 
                 Inclinando-se graciosamente diante do rei e daquela  que seria sua, se as provas confirmassem o que alegara, pôs-se a narrar a sua viagem, longa e penosa, por entre penhascos, através de campinas eriçadas de espinheiros, cheia de episódios interessantes, aos quais nem faltaram combates que teve de travar com anões que surgiram, aos milhares, das moitas de violetas, com um sonho impertinente  que era a voz das suas tubas, enristando espinhos, que eram as suas lanças. 
                  Descreveu os imensos e alfombrados jardins, as fulgurantes montanhas de cristal, os vastos palácios de jaspe e ônix, sustentados por fortes colunas de pórfiro e ladrilhados a ágatas e topázios.
                  Falou dos gigantes, altos como torres, que guardavam rebanhos de carneiros de velo de seda lustrosa  e chavelhos de ouro; falou das formosas mulheres, que tanta vez admirara nos prados floridos, banhando-se nas manhãs ribeiras coalhadas de nenúfares, adereçando ginetes mais alvos do que a neve ou remontando-se, em carros prefulgentes que eram puxados por águias brancas. 
                   Todos ouviam-no interessados e, ao cabo da narração, como o rei pedisse uma prova, porque não bastavam palavras, mostrou o moço uma romam de ouro, cujas bagas era preciosos rubis, dizendo have-la colhido no pomar  do palácio da rainha das fadas. 
                    O rei e a princesa admiraram o formoso fruto quando um dos cortesões, homem invejoso e que também pretendia a mão da donzela real, adiantou-se dizendo:  
                   - O fruto é lindo, senhor, mas bem pode ter saído da oficina de algum ourives. Se veio de galho de árvore outros iguais tenho visto em montras e joalheiros. 
                   Todos os cortesões concordaram com o fidalgo, mas o rei, que simpatizara com o mancebo, pediu-lhe outra prova do que dissera. 
                   - Senhor, disse o jovem, tenho comigo o bastante para convencer, não só a V. Majestade, como a todos os nobres da côrte.  E, fitando os olhos no invejoso, perguntou: 
                   - No vosso andar pelo mundo já vistes, por acaso, alguma árvore que cantasse, desferindo acentos tão suaves como os desfere a mais afinada garganta? 
                   - Confesso que ainda não vi, não pôde deixar de responder o odioso fidalgo. 
                   E todos entreolharam-se com visíveis sinais de dúvida,  alguns sorriram, tomando, talvez, por louco ao moço pretendente. Ele, porém, tirando do bolso de sua veste uma semente, apresentou-a ao rei dizendo: 
                   - Senhor, foi no parque da rainha das fadas que vi e ouvi a árvore que canta. Era linda a noite; de luar e animada pelos silfos luminosos, pequenos como lavandiscas, que iam duma a outra flor. Uns sentavam-se nas pétalas, outros escondiam-se nas corolas, rindo. Eu caminhava quando ouvi o canto delicioso. 
                    Julguei, a princípio, que era uma das fadas que desafiava  os rouxinóis, mas um elfo esvoaçou sussurrando a uma pequena sílfide:  "É a árvore que canta." E eu, seguindo-lhe o voo, cheguei ao sítio onde ficava a árvore e, toda a noite, deliciado, deixei-me estar a ouvi-la, até que a manhã rompeu e a árvore se calou. 
                    Trago comigo uma semente da árvore que canta. plantai-a no vosso parque e, antes de uma semana, tereis a árvore frondosa, provando, com seus gorjeios, a verdade  do que vos disse. 
                    Aceitou o rei a proposta. mas o invejoso fidalgo, que só pensava em desfazer-se do rival, que tão depressa conquistara as graças da princesa, disse severamente: 
                    - Senhor: é justo que se faça a experiência, mas, para que se não diga que fostes vitima de um embusteiro, que se lhe dê um prazo improrrogável ao fim do qual lhe caiba o prêmio ou seja punido como merece ser todo aquele que mente ao seu rei. 
                    - Dou-lhe um mês, disse o soberano.
                    - Dois, delongou a princesa. Mas o mancebo replicou: 
                    - Basta-me uma semana, nem mais um dia requeiro. Se ao fim do prazo, não se houver realizado o que eu disse, que o carrasco me venha buscar na prisão em que devo ficar. E, assim dizendo, entregou ao rei a semente preciosa. 
                    - Planta-a tu mesmo, disse o monarca ao invejoso. Planta-a no parque, perto das janelas dos meus aposentos, para que eu seja o primeiro a ouvir-lhe o canto. 
                    E o mancebo, que se sujeitara à condição, desceu, entre guardas, para a prisão do palácio. 
                     De posse da semente maravilhosa, o cortesão perverso desceu ao parque com toda a côrte e, enquanto o jardineiro abria a cova, pode, sorrateiramente, substituir a semente por um seixo que foi logo coberto sem que os do grupo dessem pela troca e, certo da vitória, voltou-se radiante, dizendo:
                      Dentro de uma semana teremos uma árvore a cantar, se a não tivermos lá fora, ao sol, balançando um corpo no seu galho seco. Referia-se à força em que deveria ser justiçado o seu formoso rival. 
                       Recolhendo ao seu palácio, desceu ao subterrâneo e lá, bem no fundo, cavando um fosso, deixou ficar a semente,  cobrindo-a com terra e pedregulhos para que não vingasse e, tranquilo - porque tinha por inevitável a morte do mancebo - subiu, dizendo que fora à adega escolher um vinho precioso para oferecer ao rei no dia do seu próximo aniversário. 
                      Todas as manhãs a princesa, muito interessada na vitória do mancebo e também curiosa de ouvir o canto da árvore, abria a janela e, nada ouvindo, descia ao parque e ia examinar o sítio em que fora plantada a semente. Nada! E a princesa chorava pesarosa, lamentando que tão  corajoso moço acabasse na forca por seu amor. 
                      Os cortesões sorriam. O próprio rei, impaciente, não ocultava o seu despeito, louvando a sutileza do fidalgo que o ia vingar exemplarmente da mistificação do embusteiro. 
                      - Que morra! bradava enfurecido. 
                      E os dias se passavam. 
                      Na véspera de findar  o prazo foram á prisão e acharam  o moço dormindo tão tranquilamente que os próprios guardas tiveram pena de despertá-lo. Mas o fidalgo, para gozar a sua crueldade, chamou-o: 
                      - Eh! amigo, expira amanhã o prazo que pediste e da árvore não há sinal na terra do parque. Andam operários na praça a levantar a forca em que, ao romper da alva, se fará justiça ao teu procedimento vil. 
                     Os olhos do mancebo relampejaram de ódio. Logo, porém, contendo-se, respondeu serenamente ao fidalgo: 
                     - Se a semente foi plantada, a árvore cantará antes da minha morte. 
                     E, de novo, deitou-se nas palhas do cárcere. 
                     Ao alvorecer do dia fatal, as trombetas soaram chamando os burgueses à grande praça onde fora levantada a forca. A tropa estendia-se em duas alas, desde o palácio real até ao sítio do suplício. As janelas ficaram apinhadas de curiosos e era tão grande a aglomeração nas ruas que iam ter à praça, que os soldados dificilmente mantinham as posições, sendo, às vezes, forçados a repelir a turba com violência para contê-la a distância, deixando livre a passagem  por onde devia transitar o sinistro cortejo. 
                     O palácio do invejoso dava a frente para a praça, fronteiro ao paço em cujo balcão o rei e a princesa, cercados de camaristas e damas, esperavam o condenado. Ao clangor das tubas, o povo ondulou, apertando-se mais e mais, e logo apareceu a carreta em que vinha o mancebo, de alva, manietado, entre soldados que empunhavam lanças. Um esquadrão de  cavalaria acompanhava o trágico veículo. Justamente quando chegava à forca, o mancebo estremeceu e, no silêncio comovido que se fizera, ouviram todos uma voz  suavíssima, cantando. O condenado sorriu e, erguendo os olhos para o balcão real disse: 
                    - Senhor, é a árvore que canta, Escutai-a.  
                    E todos, extasiados, procuravam a direção do canto. 
                    O fidalgo, pouco antes alegre w triunfante, empalidecia à janela do seu palácio, e a voz, cada vez mais meiga, soava docemente. De repente alguém disse na multidão, apontando o palácio do invejoso: 
                    - É dali que vem o canto!
                    E a turba imensa avançou contra o palácio, aos brados; mas as portas, que eram de bronze, resistiram ao choque. 
                    O rei, então, que começava a suspeitar do fidalgo, desceu  à praça e entre os seus arqueiros, intimou o vassalo a abrir-lhe as portas. O miserável obedeceu, recebendo o monarca no vestíbulo, zumbrido, com um suor gelado a escorrer-lhe a fronte. E a voz, cada vez mais suave, encantava com a sua melodia. 
                    - Quem canta no teu palácio? perguntou o rei serenamente. Dize a verdade se não queres que os meus arqueiros te levem arrastado ao patíbulo que fizeste levantar na praça. 
                    - Senhor, é a árvore que canta. 
                    - Onde a plantaste? 
                    - No subterrâneo do palácio.
                    - Leva-me quero vê-la. 
                    Caminhando humilde, o fidalgo desceu à cave tenebrosa e úmida, precedendo o rei a a sua comitiva, e lá estava a árvore frondosa, verde, florida e cantando. 
                    - E que plantaste no parque real? 
                    - Um seixo, senhor. 
                    E sem achar palavras para defender-se, o vilíssimo homem  prostrou-se aos pés do rei, pedindo apenas a vida.
                    O soberano desprezou-o e, subindo em passos ligeiros,  atravessou a praça, ordenando que conduzissem à sua presença  o moço condenado. A princesa exultava e maior foi a sua alegria quando, ao aparecer o moço, o rei o levou ao balcão, apresentando-o ao povo como - o prometido noivo de sua filha. Estrugiram aclamações e, se não fosse a soldadesca, o palácio do invejoso teria sido varejado pela multidão indignada.    
                    E a árvore cantava docemente e o seu canto vencia o vozear da turba. Bem dissera o moço: "Se a semente foi plantada, a árvore cantará antes da minha morte." 
                    A verdade é como a semente da árvore que cantava; traiam-na com os sofismas, abafem-na da luz, que ela rebentará fulgurante, dando a vitória à justiça e confundindo o traidor. 
          BREVE BIOGRAFIA 
          Henrique Coelho Netto, escritor e romancista brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão, em 1864. Pertenceu á Academia Brasileira de Letras. A sua obra muito extensa, compreende mais de sessenta trabalhos, entre romances, novelas, contos e obras de teatro. Foi professor no Ginásio do Rio de Janeiro. Escreveu: "Rapsódias", Contos; "A Capital Federal", romance; "praga", novela; "Baladilhas", contos; "Inverno em Flor", romance; "O Morto", romance; "A Descoberta da Índia", narrativa histórica, etc. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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terça-feira, 21 de maio de 2013

UMA GALINHA - Por Clarice Lispector

UMA GALINHA 
Por Clarice Lispector
               Era uma galinha de domingo. Ainda vivia porque não passava de nove horas da manhã. 
               Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
               Foi pois uma surpresa quando a viram  abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou - o tempo da cozinheira da um grito - e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro voo desajeitado, alcançou o telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de um chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha:  em pulos cautelosos alcançou o telhado onde  esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. À perseguição tornou-se mais intensa. De telhado e telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça.  O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito da conquista havia soado. 
               Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. 
               Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. 
                Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. 
                 Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pareci uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:  - Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem! 
                  Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nuca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão: 
                 - Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida.
                 - Eu também! jurou a menina com ardor. 
                 A mãe, cansada, deu de ombros. 
                 Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava. "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a de sobressalto. 
                Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga - e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausando como um campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado. 
                Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anuncia. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas,  ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vaza cabeça se alterasse. Na fuga,no descanso, quando deu à luz ou bicando milho - era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos. 
                 Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos. 
OBSERVAÇÕES:
             A bela construção das frases é o que mais fascina e fixa o leitor nos textos da Clarice.  A galinha, protagonizadora central, é apenas a aparência de galinha; funciona como uma reflexão ou refração da psicologia das pessoas que a circundam; com sua arte a autora desloca o o eixo da atenção para o animal, mas seu objetivo é detectar uma reação vivencial em face de uma situação corriqueira. É o fruto da genialidade de Clarice Lispector que, com a odisseia patética de uma simples galinha condenada a morte é projetada a uma espécie de rainha da casa. Com isso a autora nos leva a penetrar mais um pouco no grande mistério da própria existência humana.  Nessa condição o pequeno animal simbolizaria o homem à mercê de seu semelhante, do tempo e da morte inevitável. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               BREVE BIOGRAFIA:
               Clarice Lispector nasceu  na Ucrânia - cidade de Tchetchelnik em 10 de Desembro de 1925. Seus pais imigraram para o brasil quando ela estava com apenas dois meses de idade. No Recife, curça o primário e o secundário. Transferindo-se para o Rio de janeiro, ingressa na Faculdade de Direito. Forma-se em 1944, ano em que publica o primeiro livro, "Perto do Coração Selvagem", que fora muito aplaudido pela crítica. Nessa mesma época, casa-se com um diplomata e, em razão dos compromissos do marido, afasta-se do país durante longos períodos (entre 1945 e 1949) e também (entre  1952 e 1960), mas nunca deixou de dedicar-se à Literatura, produzindo livro apos livro. Tem publicados os seguintes romances: "O Lustre (1946), "A Cidade Sitiada (1949), "A maçã no Escuro" (1961), "A Paixão segundo G.H. (1964), Uma Aprendizagem ou O Livro dos prazeres (1969); livros de contos: "Alguns Contos" (1952), "Laços de Família" (1960), "A Legião Estrangeira" (1964); e também literatura infantil. 
Nicéas Romeo Zanchett